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A cidade de 1727 que preserva 90% da arquitetura original e casarões históricos encanta em meio às paisagens do cerrado

Viver na Cidade de Goiás significa adotar um ritmo pautado pela serenidade das tardes e pelo som das águas do Rio Vermelho.

No casarão de janelas azuis à beira do Rio Vermelho, uma mulher que só publicou o primeiro livro aos 75 anos transformou a imagem de uma cidade esquecida. Cora Coralina fez de seus versos o maior argumento para que o mundo reconhecesse o valor da Cidade de Goiás, hoje Patrimônio da Humanidade pela UNESCO e um dos centros históricos mais preservados do Brasil.

O ouro que fundou e o esquecimento que preservou

Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, encontrou ouro às margens do Rio Vermelho no início do século XVIII e fundou o arraial que viraria Vila Boa de Goiás em 1727. A cidade se tornou a primeira capital da capitania e, segundo o IPHAN, o primeiro núcleo urbano oficialmente reconhecido a oeste da linha do Tratado de Tordesilhas.

Quando o ouro acabou, a estagnação econômica congelou o cenário. A perda do título de capital para Goiânia em 1937 aprofundou o isolamento. Ironicamente, foi esse abandono que impediu reformas e demolições, mantendo intacto o traçado colonial que hoje atrai visitantes de todo o país. O IPHAN tombou o centro histórico em 1978, e a UNESCO reconheceu seu valor universal em dezembro de 2001.

Cora Coralina e a casa que virou o museu mais visitado

Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas nasceu em Goiás Velho em 1889, estudou apenas até a quarta série e viveu 45 anos em São Paulo. Voltou viúva em 1956 para o mesmo casarão à beira do rio. Ali, entre panelas de doce e cadernos manuscritos, escreveu os versos que mudariam a percepção sobre a antiga Vila Boa.

Seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, saiu em 1965, quando ela já tinha 75 anos. Carlos Drummond de Andrade leu a obra e declarou que aquele “vintém de cobre” era “moeda de ouro”. A Casa Velha da Ponte virou museu em 1989 e é hoje o lugar mais visitado da cidade.

O que visitar caminhando pelas ruas de pedra?

Todo o roteiro pelo centro histórico pode ser feito a pé. As ruas de paralelepípedo conectam igrejas, museus e mirantes em poucas quadras que concentram séculos de história.

  • Museu Casa de Cora Coralina: objetos pessoais, manuscritos e o fogão à lenha onde a poetisa preparava doces cristalizados. Funciona à beira do Rio Vermelho.
  • Museu de Arte Sacra da Boa Morte: instalado na antiga igreja, abriga o maior acervo do escultor barroco Veiga Valle e coleções de prata sacra.
  • Palácio Conde dos Arcos: antiga sede dos governadores, com mobiliário do século XVIII e jardim colonial preservado.
  • Igreja de Santa Bárbara: no ponto mais alto da cidade, oferece vista panorâmica do vale e da Serra Dourada.
  • Museu das Bandeiras: funciona na antiga Casa de Câmara e Cadeia, com documentos e objetos do período bandeirante.

Quando a cidade apaga as luzes e acende as tochas?

A Procissão do Fogaréu é a celebração mais impressionante de Goiás Velho. Desde 1745, à meia-noite da Quarta-feira Santa, a iluminação pública é desligada. Quarenta homens encapuzados, os farricocos, saem descalços com túnicas coloridas e tochas acesas pelos becos, encenando a perseguição e prisão de Cristo.

A tradição foi trazida pelo padre espanhol João Perestello de Vasconcelos Spíndola e resgatada em 1965 pela Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT). Em 2023, a procissão foi reconhecida como Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado de Goiás. O evento atrai cerca de 20 mil pessoas por edição.

Que sabores o Cerrado coloca no prato?

A gastronomia de Goiás Velho é marcada pelo uso de ingredientes do Cerrado e por receitas que passam de geração em geração.

  • Empadão goiano: torta recheada com frango, linguiça, guariroba e queijo, vendida em quase todas as casas do centro histórico.
  • Alfenins: doces artesanais em formato de pássaros, flores e símbolos do Divino Espírito Santo, feitos com técnica centenária.
  • Sorvete de castanha de baru: vendido no coreto da praça central, usa a castanha nativa do Cerrado.
  • Doces cristalizados: de caju, figo e laranja, preparados com a técnica aprimorada por Cora Coralina.

Quando o clima favorece a visita?

O período seco, de maio a setembro, é o mais indicado. As noites são amenas e o céu limpo favorece caminhadas e eventos ao ar livre.

EstaçãoMesesTemperaturaChuvaO que fazer
VerãoDez-Fev20-32 °CAltaCachoeiras e Rio Vermelho
OutonoMar-Mai18-30 °CMédiaSemana Santa e Procissão do Fogaréu
InvernoJun-Ago14-29 °CBaixaFICA, museus e centro histórico
PrimaveraSet-Nov19-33 °CMédiaTrilhas na Serra Dourada

Dica do especialista: O inverno, com baixa probabilidade de chuva e clima mais ameno, é a época perfeita para passear pelo preservado centro histórico colonial e prestigiar o renomado Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA).

Como chegar à antiga Vila Boa?

A Cidade de Goiás fica a 140 km de Goiânia pela GO-070, em estrada asfaltada com trajeto de cerca de duas horas. De Brasília, são aproximadamente 300 km pela BR-060 até Anápolis e depois por rodovias estaduais. O Goiás Turismo indica o Aeroporto Santa Genoveva de Goiânia como base para voos de todo o país.

O futuro que mora no passado

A antiga Vila Boa perdeu o ouro, perdeu a condição de capital e quase perdeu a identidade. Foi uma poetisa doceira e um grupo de moradores teimosos que mostraram ao mundo o valor de um patrimônio que ninguém ousou modernizar. Hoje, a Cidade de Goiás é prova de que preservar pode ser o caminho mais corajoso de todos.

Você precisa caminhar pelos becos que Cora transformou em verso e sentir, entre paredes de adobe e cheiro de alfenim, uma cidade que respira história sem pressa de ser outra coisa.

Fonte: Correio Braziliense

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