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O Mercado Central de Belo Horizonte: um território sagrado

Se o mineiro não tem mar, ele tem o Mercado Central de Belo Horizonte. É lá que a gente se batiza com o cheiro de queijo canastra, limpa a alma com um jiló na chapa e resolve os problemas do mundo espremido em um balcão.

O Mercado sempre foi um território sagrado, imune às pressas do mundo lá fora. Até o dia em que resolveram transformá-lo em um bilhete de loteria.Quando a fachada ganhou o sobrenome “KTO”, uma sensação estranha tomou conta dos corredores.

Não era apenas uma questão de compra dos direitos de nome ou de modernização de marca; era o jargão frio dos algoritmos de apostas invadindo o último reduto do afeto belo-horizontino. De repente, o templo da nossa mineiridade parecia rebaixado a um palpite de mesa de bar. Passamos a flertar com a “betização” da nossa própria história, onde até o nome daquilo que amamos foi colocado na mesa de apostas, esperando o próximo lance do mercado corporativo.

A recente intervenção da Vale para arrancar o logotipo da casa de apostas e devolver o nome tradicional — uma manobra curiosa chamada de right naming — funciona como um alívio, mas também deixa um gosto amargo na boca.

Precisamos mesmo que uma mineradora compre a nossa identidade de volta para que ela continue sendo nossa? O episódio do “Mercado KTO” fica como um alerta incômodo: na pressa de monetizar cada centímetro quadrado da cidade, quase permitimos que transformassem nossa memória em um cassino de esquina.

Domingos T Costa

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