Festa de Nossa Senhora do Rosário preserva a fé, a memória e as tradições de uma comunidade que mantém viva uma história que remonta quase dois séculos de existência
Uma multidão tomou as ruas de Pinheiros Altos, distrito de Piranga, comunidade Quilomboda, no último fim de semana de agosto, para celebrar uma das manifestações religiosas e culturais mais importantes da comunidade: a tradicional Festa de Nossa Senhora do Rosário. Marcada pela fé, pela música, pelo encontro entre famílias e pela presença de pessoas de diferentes idades, a festa ultrapassa os limites de uma celebração religiosa. Ela representa também a preservação da memória, da cultura e das raízes de uma comunidade que mantém viva uma tradição cuja história tem quase dois séculos de existência.
O registro histórico mais antigo localizado até o momento é de 1838. A documentação encontrada é escassa e parte dos documentos existentes encontra-se em diferentes estados de conservação, mas o registro demonstra a antiguidade da manifestação e reforça a importância de preservar os vestígios da história local.
As celebrações são precedidas pela novena, que reúne a comunidade durante nove dias de oração e devoção. Ao longo desse período, moradores, pessoas vindas de comunidades vizinhas e aqueles que, mesmo vivendo hoje em outros lugares, mantêm seus vínculos com Pinheiros Altos retornam para participar das celebrações. São encontros marcados pela fé, pela memória e pelo sentimento de pertencimento, que preparam a comunidade para os dois dias festivos, momentos mais aguardados da celebração.
A devoção tem como centro Nossa Senhora do Rosário, acompanhada tradicionalmente por São Benedito e Santa Efigênia, santos profundamente ligados à religiosidade popular e à história das comunidades negras no Brasil. Marcado pelo encontro entre a tradição católica e manifestações culturais de origem africana nas festas e nas devoções católicas, o espaço é mantido para ressignificar práticas de fé, música, dança, memória e pertencimento.
O reinado reúne a comunidade
Um dos momentos de maior destaque da festa é o Reinado, manifestação que reúne fé, solenidade e elementos simbólicos preservados pela tradição.
Os reis e as rainhas convidados participam da celebração usando suas coroas e capas. Durante o cortejo, as tradicionais sombrinhas, abertas por outras pessoas para acompanhar o rei e a rainha, também compõem a cena e conferem ao momento uma característica própria. Mais do que adornos, esses elementos fazem parte de uma tradição transmitida ao longo das gerações e ajudam a contar a história da própria comunidade.
O Reinado transforma as ruas de Pinheiros Altos em espaço de encontro. Famílias inteiras participam, moradores que vivem fora do distrito retornam para a celebração e visitantes se juntam aos festeiros. A realização da Festa do Rosário depende diretamente da participação da comunidade, contando com moradores, famílias, festeiros, devotos e voluntários que colaboram para que cada detalhe aconteça.
Em Pinheiros Altos, a celebração é uma oportunidade de reencontro. É quando antigos moradores voltam, famílias se reúnem e crianças e jovens têm contato com manifestações que fazem parte da história de seus pais, avós e antepassados. Apesar da importância da Festa do Rosário para a comunidade, ainda são poucos os registros históricos disponíveis sobre sua origem e sobre a trajetória da própria localidade. A ausência de registros completos, entretanto, não significa ausência de história: parte dela permanece guardada na memória dos moradores, nas narrativas familiares, nos costumes, nos símbolos e na própria continuidade da festa.

Patrimônio e necessidade de preservação
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Pinheiros Altos, além de ser o principal espaço religioso ligado à festa, possui importância patrimonial para a comunidade e é protegida. O templo, entretanto, necessita de cuidados e intervenções para sua conservação, entre elas trabalhos relacionados ao forro e à pintura.
A preocupação com a preservação da igreja acompanha o esforço da comunidade para manter viva a própria festa. Afinal, preservar o patrimônio material também significa proteger o espaço onde parte importante da memória coletiva continua sendo construída.
O registro de 1838 mostra que a história documentada da celebração atravessa gerações. Mas é a presença das pessoas, ano após ano, que mantém essa história viva. A Festa do Rosário não é apenas uma lembrança do passado; ela continua sendo vivida no presente, reafirmando a identidade local nas coroas, capas, sombrinhas, orações e cânticos.
A comunidade tem feito a sua parte, mobilizando-se e buscando recursos, mas a preservação de um patrimônio histórico não pode depender apenas do esforço dos moradores. É necessário que o poder público e os órgãos responsáveis também assumam sua responsabilidade, garantindo que a igreja continue de pé e possa acolher, por muitos anos, aqueles que mantêm viva a devoção a Nossa Senhora do Rosário.
fonte: Jornal O Espeto




