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Intolerância política em Ouro Branco chega ao comércio e até ao Natal das crianças

A vitória de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições presidenciais desencadeou uma onda de hostilidade política que chegou ao comércio de Ouro Branco e atingiu até iniciativas de solidariedade. Algo semelhante ocorreu no Distrito do Sobrado, em Itaverava. Além da circulação de listas que recomendam boicotar estabelecimentos identificados como de esquerda, uma mensagem atribuída a um comércio anuncia a decisão de não participar de uma campanha de Natal destinada a crianças, sob a justificativa de que parte da população prefere viver do assistencialismo do governo.

A radicalização ocorre após uma virada eleitoral expressiva no município. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro venceu Lula por 10.891 votos a 10.187. No segundo, realizado no domingo (25), Lula reverteu o resultado e venceu com 12.737 votos (51,72%), contra 11.888 (48,28%). A mudança ajuda a compreender o ambiente de acirramento político, embora não seja possível afirmar que tenha motivado diretamente os episódios.

Uma das publicações disseminadas nas redes sociais separa estabelecimentos entre esquerda e direita, recomenda privilegiar comerciantes identificados como conservadores e declara que os demais não precisam do dinheiro dos consumidores. As preferências políticas atribuídas aos proprietários não foram comprovadas.

Mas o episódio mais perturbador envolve crianças. Em mensagem atribuída a um comércio de Ouro Branco, uma pessoa que afirma representar o estabelecimento agradece o convite para uma ação natalina, reconhece que as crianças não têm responsabilidade pela situação política e, ainda assim, anuncia a retirada de participação em iniciativas de ajuda ao próximo. O texto também critica o suposto assistencialismo e afirma, sem apresentar dados, que sobram empregos na cidade. A autoria da manifestação ainda não foi confirmada de forma independente.

Ninguém é obrigado a contribuir com campanhas beneficentes. Entretanto, utilizar divergências políticas para justificar a recusa de solidariedade, associando pessoas vulneráveis à dependência do governo, expõe uma preocupante deterioração da convivência social.

Diante dos boicotes, a Associação Comercial e Empresarial de Ouro Branco (ACEOB), representada por Péricles Dávila Bartholomeu, o Perinho, divulgou nota de repúdio à discriminação e à hostilidade motivadas por questões ideológicas. A entidade condenou com firmeza qualquer forma de discriminação, hostilidade ou boicote direcionada a estabelecimentos comerciais por motivos políticos. No documento, a associação sublinha que o livre exercício da atividade económica e a neutralidade comercial constituem pilares fundamentais para o desenvolvimento do município.

A entidade alerta ainda que práticas como hostilidades, boicotes ou tratamentos diferenciados fundamentados em ideologias ferem o princípio da livre iniciativa, prejudicando assim um ambiente pautado pelo respeito mútuo e pelo progresso para todos.

Nesta quarta-feira (28), a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) também condenou nacionalmente essas práticas e alertou para possíveis consequências judiciais. A democracia garante o direito de votar, discordar, criticar governos e escolher onde consumir. Não transforma, porém, o adversário político em alguém indigno de respeito ou solidariedade.

Quando a intolerância ultrapassa as urnas, invade o comércio e alcança até o Natal de crianças, a sociedade precisa questionar não apenas os rumos da política, mas os limites da própria humanidade.

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