Ocorrido em uma das cidades históricas mais famosas do Brasil e associado a ‘ritual macabro’, assassinato tornou-se símbolo de impunidade.
O dicionário Aurélio define justiça como a virtude de dar a cada um aquilo que é seu. Há duas décadas, no entanto, Maria José Silveira Soares, de 77 anos, passou a ver ambiguidade no significado. “O que é isso? Eu me pergunto. Não voltará atrás, não restituirá o que eu perdi”. Em 14 de outubro de 2001, a filha dela, Aline Soares, à época com 18 anos, foi encontrada morta em um cemitério de Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais. Ela sofreu 17 golpes de faca e teve o corpo colocado em formato de crucifixo.
Ocorrido em uma das cidades históricas mais famosas do Brasil, o assassinato, que completa 25 anos nesta quarta-feira, tornou-se símbolo de impunidade. A investigação da Polícia Civil e a denúncia do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) apontaram como motivação um “ritual macabro” relacionado a um jogo de Role-Playing Game (RPG), no qual os participantes assumem papéis fictícios e constroem uma história colaborativa. A tese, no entanto, não convenceu o Conselho de Sentença, que absolveu os quatro acusados em 2009.
Conhecida como Zezé, Maria José mantém fotos da filha espalhadas pela casa onde vive, em Manhumirim, na Zona da Mata mineira. Mãe de outros dois filhos e avó de dois netos, ela encontrou no espiritismo uma forma de lidar com a dor que a Justiça não conseguiu reparar. “A religião não tira nossa dor, mas tira nosso desespero. É uma diferença enorme sofrer, mas com conhecimento de causa”, afirma.
Aline viajou para Ouro Preto em 11 de outubro para participar da tradicional Festa do Doze, que reúne universitários na cidade histórica. Ela estava acompanhada da prima, Camila Dolabella Silveira, que depois acabou acusada de envolvimento no crime. As duas ficaram hospedadas na República Sonata, onde moravam outros três acusados: Cassiano Garcia, Edson Aguiar e Maicon Lopes.
Na manhã de 14 de outubro, o corpo da estudante foi encontrado no cemitério da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia. Aline estava nua, com exceção dos tênis, e tinha 17 perfurações. A posição do corpo, com os braços abertos, contribuiu para que a hipótese de um ritual ganhasse força.
Durante as buscas na república, a polícia apreendeu livros e materiais relacionados a um jogo de RPG. A descoberta passou a orientar a investigação sobre o crime. A tese, porém, foi questionada. Entre os pontos levantados estavam falhas na preservação de vestígios que poderiam ter sido submetidos a exames de DNA e elementos da perícia que não correspondiam à hipótese de participação de várias pessoas no assassinato.
Após a absolvição, o próprio Ministério Público reconheceu que os problemas da investigação tiveram peso no resultado. Em junho de 2010, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais manteve a decisão. O processo foi encerrado sem que ninguém fosse responsabilizado pela morte de Aline.
Para Zezé, restou aprender a conviver com a ausência da filha. “São duas décadas, mas para mim foi ontem. Eu não quero esquecê-la, porque tenho memórias maravilhosas. Ela era muito querida”, diz. Sem respostas, a mãe ainda se pergunta quase todas as noites: “Quem faria algo tão terrível com a Aline e por quê?”.
Aline via o melhor nas pessoas
Se as autoridades falharam em encontrar culpados e provas do crime, os familiares convivem com a certeza de que Aline tinha a dádiva da confiança. “Todo mundo era ‘gente boa’ para ela. Confiava em todos. Ela via o mundo de uma maneira maravilhosa, que nem todos conseguem ver”, diz a mãe de Aline.
Professora, Luciana Siqueira Andrade, de 47 anos, era amiga de infância de Aline, apelidada de Japa pelo grupo de amigos em referência aos traços orientais do rosto. Hoje, ela dá aulas para o neto de Zezé. “O assassinato interrompeu os sonhos de uma mulher que se relacionava bem com todos”, diz Luciana, que esteve com Aline pela última vez poucos dias antes do crime. Na ocasião, as duas combinaram de ir a uma festa à fantasia semanas depois. “Nunca fomos. Ela voltou de Ouro Preto em um caixão”, lamenta.
Para Luciana, Aline teve a própria confiança traída. “Ela jamais iria para aquele cemitério se não tivesse alguém ali que ela conhecia bem. Ela tinha medo de pessoas estranhas. Essa história e a brutalidade dela mexem muito comigo. Não existe justiça no que aconteceu com ela”, diz.
O que dizem as autoridades?
Procurada, a Polícia Civil afirmou que “não comenta inquéritos já concluídos”. A reportagem também procurou os quatro réus, entre eles a prima de Aline, mas não obteve resposta.
Confira a nota do MPMG na íntegra:
“O Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MPMG) esclarece que a promotora de Justiça responsável pelo processo à época não integra mais o quadro de membros ativos da instituição, em razão de aposentadoria por tempo de serviço, sendo a responsável direta pelas manifestações nos autos na época.
No âmbito processual, a tramitação do caso seguiu o curso regular e o resultado se deu em conformidade com os princípios e regras que orientam o julgamento pelo Tribunal do Júri, prevalecendo o convencimento dos jurados acerca da fragilidade das provas. O MPMG interpôs o recurso cabível contra a decisão, mas este foi negado pelo TJMG, considerando-se, principalmente, que, à época dos fatos, perícias fundamentais não foram efetivadas ainda na fase policial. Algumas delas só foram realizadas já na fase processual, anos após o crime.
O MPMG reforça que sua atuação se pauta permanentemente pelo rigor técnico, pela busca da verdade real, pelo respeito ao devido processo legal e pela defesa da vida. De forma contínua, o MPMG aprimora suas rotinas de trabalho, destacando-se a criação da Coordenadoria Estadual das Promotorias de Justiça do Tribunal do Júri (Cojur), destinada ao suporte técnico, orientação e capacitação funcional dos promotores de Justiça que atuam no Tribunal do Júri nas diversas comarcas do Estado.”
fonte: O Tempo



