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Única cordilheira do Brasil entra em rota de risco com avanço da mineração de rocha ornamental sobre áreas de alto valor ambiental e turístico

Única cordilheira brasileira, a Serra do Espinhaço vive tensão crescente entre ecoturismo, conservação da paisagem e avanço da mineração de quartzito em territórios protegidos, com impactos econômicos, culturais e ambientais relevantes

A Serra do Espinhaço, única cordilheira do Brasil, estende-se por cerca de mil quilômetros entre Minas Gerais e Bahia e enfrenta conflito entre ecoturismo, preservação ambiental e mineração de quartzito, atividade crescente em áreas de alto valor paisagístico.

Reconhecida como Reserva da Biosfera pela UNESCO, a Serra do Espinhaço concentra biodiversidade singular, campos rupestres raros e formações quartzíticas moldadas ao longo de milhões de anos.

Para mineiros e visitantes, a região simboliza identidade cultural, natureza preservada e corredores históricos que hoje sustentam atividades de lazer, caminhada, ciclismo e turismo de contemplação.

Entre esses caminhos estão rotas conhecidas por integrar paisagem, memória e economia local, atraindo visitantes interessados em experiências ao ar livre e contato direto com ambientes naturais.

Essa vocação turística sustenta comunidades inteiras, gera renda contínua e depende diretamente da integridade visual das serras, vales e mirantes espalhados ao longo do território.

A serra como eixo ecológico e econômico

Além do valor simbólico, a Serra do Espinhaço funciona como eixo ecológico fundamental, conectando biomas, regulando recursos naturais e sustentando modos de vida associados ao turismo sustentável.

Ao mesmo tempo, a mesma formação geológica abriga quartzito, rocha ornamental e de revestimento cada vez mais disputada por projetos de extração em Minas Gerais.

Essa dualidade cria um dilema concreto entre conservar paisagens que sustentam o ecoturismo ou priorizar uma atividade extrativa de retorno imediato e impacto permanente.

A escolha não é apenas ambiental, mas econômica, social e cultural, pois envolve modelos distintos de desenvolvimento para regiões inteiras.

Mineração e turismo em rota de colisão

O conflito deixa de ser abstrato ao cruzar os 172 municípios mineiros da Reserva da Biosfera com processos minerários registrados no SIGMINE, sistema da Agência Nacional de Mineração.

A sobreposição revela que áreas mais valorizadas pelo turismo coincidem com elevada concentração de projetos de mineração de quartzito.

Corredores ecoturísticos estratégicos aparecem lado a lado com requerimentos e explorações, criando tensão direta entre visitantes e frentes de lavra a céu aberto.

Na prática, a atividade extrativista avança próxima a mirantes, trilhas e paisagens icônicas, alterando exatamente o cenário que atrai turistas.

O impacto visual como dano econômico

O ecoturismo baseia-se na contemplação e na harmonia da paisagem, fatores que definem a experiência e justificam o deslocamento de visitantes.Play Video

Minas a céu aberto provocam mudanças drásticas na topografia, cores e formas da serra, afetando diretamente a percepção visual do território.

Esse impacto não é apenas estético, mas econômico, pois compromete a atratividade turística e reduz a capacidade de geração de renda local.

Mesmo operações organizadas deixam cicatrizes permanentes, difíceis de reverter e incompatíveis com a lógica do turismo de natureza.

Lacunas na legislação ambiental

Apesar da relevância do problema, a legislação ambiental brasileira e mineira apresenta falhas claras no tratamento desse conflito.

Projetos de grande impacto exigem EIA-RIMA, porém a mineração de quartzito raramente é enquadrada como atividade de impacto significativo.

Na prática, muitos empreendimentos avançam sem avaliações profundas, mesmo inseridos em áreas reconhecidas pelo alto valor cênico.

O ponto mais crítico é a ausência de exigência específica para Avaliação de Impacto Visual no licenciamento minerário.

Paisagem sem instrumentos de proteção

A legislação prioriza impactos sobre água, solo e fauna, fundamentais, mas ignora a paisagem como ativo econômico e cultural central do ecoturismo.

Sem metodologia obrigatória, órgãos licenciadores carecem de ferramentas para medir danos visuais causados pela mineração em áreas turísticas.

Documentos de licenciamento em Minas Gerais evidenciam essa lacuna, deixando a paisagem vulnerável a decisões fragmentadas e pouco criteriosas.

Assim, autoriza-se a supressão de vistas emblemáticas sem reconhecimento formal do prejuízo social e econômico envolvido, o que fragiliza a proteção do território.

Caminhos para um futuro possível

Se a serra continuar vista apenas como reserva mineral, o risco de comprometimento irreversível da paisagem torna-se cada vez mais real.

O mapeamento espacial entre mineração e ecoturismo oferece base técnica para repensar políticas públicas e critérios de licenciamento ambiental.

Entre as propostas está tornar a Avaliação de Impacto Visual obrigatória em áreas de valor cênico, especialmente Reservas da Biosfera.

Outra medida é adotar avaliação ambiental integrada, considerando efeitos cumulativos de várias minas em corredores turísticos ou bacias específicas.

Pequenas agressões somadas produzem grandes danos, um aspecto frequentemente ignorado em análises isoladas de licenciamento.

Paisagem como capital estratégico

Reconhecer a paisagem como capital estratégico é essencial para equilibrar conservação e desenvolvimento econômico regional.

O turismo representa recurso renovável, capaz de gerar renda contínua sem esgotar o patrimônio natural, diferentemente da extração mineral.

Já o quartzito produz riqueza imediata, mas finita, deixando passivos ambientais e reduzindo o potencial turístico futuro da região.

A Serra do Espinhaço, portanto, não é apenas um depósito de rochas, mas um patrimônio coletivo que exige escolhas responsáveis.

Preservar suas paisagens significa proteger identidade cultural, biodiversidade e economias locais que dependem da beleza natural para existir.

Com informações de Terra.

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