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Fim dos hipermercados? Modelo que fez sucesso no Brasil cresce, muda hábitos e levanta dúvidas no varejo

Avanço do atacarejo acelera mudança nas compras, pressiona formatos tradicionais e reorganiza a disputa por preço e conveniência no setor alimentar.

O avanço do atacarejo, formato que combina características do atacado e do varejo, tem reposicionado a disputa por consumidores no setor alimentar e reforçado a pressão sobre modelos tradicionais, como hipermercados.

Em entrevista ao programa Show Business, da Jovem Pan News, o CEO do Assaí Atacadista, Belmiro Gomes, atribuiu a mudança a uma mistura de busca por preços mais baixos, custos logísticos elevados no país e transformação no jeito de comprar, com parte das categorias migrando para o comércio eletrônico.

Segundo o executivo, o atacarejo ganhou tração ao atender, no mesmo espaço, famílias que fazem compras abastecedoras e empreendedores que precisam repor estoques com frequência.

Na visão dele, o formato reduz custos operacionais ao concentrar esforços em um ponto-chave: vender itens de alimentação, limpeza e perfumaria com preços menores do que em outros canais.

Atacarejo no Brasil e a virada de hábito do consumidor

Belmiro afirmou que a expansão do modelo acompanhou características estruturais do Brasil, como dimensões continentais, logística cara e alta complexidade tributária, além do peso dos produtos de menor valor agregado, em especial alimentos.

Ele também relacionou a busca por economia ao cenário de renda pressionada e desigualdade, que amplia a sensibilidade ao preço mesmo fora de períodos de inflação mais intensa.

A fórmula, na prática, se apoia em dois públicos.

De um lado, consumidores finais que compram em volume, abastecendo a casa.

Do outro, pequenos negócios, como bares, restaurantes, lanchonetes, padarias e outros serviços, para os quais o preço de compra influencia diretamente a margem e a sobrevivência do negócio.

Ao falar desse segundo grupo, o CEO descreveu o atacarejo como uma espécie de “distribuidor complementar” para a indústria, reduzindo a necessidade de entregas porta a porta em regiões densas, onde a operação se torna mais cara e menos eficiente.

O crescimento do formato, de acordo com o executivo, não ficou restrito às periferias, onde o atacarejo se popularizou com força nas primeiras ondas de expansão.

Ele disse que, ao longo do tempo, as lojas passaram a atrair também públicos de maior renda e avançaram para diferentes regiões, impulsionando uma presença mais ampla nas rotinas de compra.

Hipermercados, e-commerce e a mudança no mix de vendas

Uma parte central da entrevista foi a tentativa de reorganizar a narrativa sobre o enfraquecimento do hipermercado.

Belmiro disse que, embora muita gente associe a virada ao atacarejo, o principal fator teria sido o crescimento do e-commerce em categorias não perecíveis e de maior valor agregado, como eletroeletrônicos e itens de casa.

Na avaliação dele, quando o consumidor passou a comprar esse tipo de produto pela internet e receber em casa, o hipermercado perdeu uma fatia relevante do tráfego que ajudava a sustentar o modelo.

Com menos vendas nessas categorias e custos elevados para operar áreas amplas e sortimentos extensos, a competição com formatos mais enxutos teria ficado mais difícil, abrindo caminho para a consolidação do atacarejo no abastecimento do dia a dia.

Preço mais baixo e margens apertadas no varejo alimentar

O executivo apontou que a vantagem de preço do atacarejo, em comparação com hipermercados e supermercados, costuma variar por categoria.

No programa, ele citou uma diferença típica na faixa de 12% a 15%, associando esse patamar ao incentivo necessário para o consumidor trocar de canal na compra de alimentos.

Ao explicar como o negócio se sustenta com preços menores, Belmiro reforçou que se trata de uma operação de margem baixa, com foco em escala e volume.

Ele também citou que o lucro líquido do setor tende a ser apertado e que, em momentos de juros elevados, os resultados podem ficar ainda mais comprimidos.

A lógica, segundo ele, é girar mercadoria com eficiência e repassar o ganho de custo para o consumidor, preservando o modelo de alta rotatividade.

Assaí Atacadista e a escala do atacarejo no país

O Assaí se tornou um dos símbolos do avanço do atacarejo no país.

A companhia fechou 2024 com faturamento bruto de R$ 80,6 bilhões e opera 302 lojas em 24 estados e no Distrito Federal, segundo informações divulgadas pela própria empresa.

A rede também tem mais de 87 mil colaboradores e, em comunicados recentes, registrou fluxo em torno de 40 milhões de pessoas por mês em suas unidades.

Na entrevista, Belmiro descreveu a mudança do atacarejo como uma “evolução natural” do formato.

Ele contou que, para ampliar a presença em áreas mais centrais e atrair clientes com outras demandas, o setor investiu em melhorias na experiência de compra, sem abandonar a promessa de preço baixo.

Entraram nessa conta ajustes de iluminação, climatização, treinamento, sortimento e organização de loja, além de avanços no padrão de perecíveis.

Açougue, padaria e autoatendimento para ampliar a cesta

O CEO relatou que o atacarejo, historicamente associado a grandes volumes e embalagens maiores, passou a buscar também compras menores e mais frequentes, em parte por mudanças no mercado de trabalho e na forma de recebimento de renda.

Ele citou a presença crescente de trabalhadores com renda diária, o que pode estimular reposições mais rápidas em vez da compra mensal completa.

Nesse contexto, o Assaí ampliou serviços e categorias dentro das lojas, como açougue e áreas de frios fatiados, além de iniciativas ligadas a autoatendimento nos caixas.

A empresa informou em seus comunicados que mais de 110 lojas receberam novos serviços em 2024 e que a presença desses recursos se expandiu de forma significativa em relação a anos anteriores.

Em divulgação posterior, o grupo também apontou a ampliação do uso de caixas de autoatendimento em parte relevante da rede.

Ao tratar de números específicos, Belmiro disse que alguns detalhamentos não são abertos por se tratar de uma empresa de capital aberto.

Ainda assim, ele defendeu que a diversificação de serviços ajuda a manter competitividade e amplia a capacidade de atender perfis diferentes de consumidores, incluindo quem compra pouco e quem compra muito.

Venda de medicamentos em supermercados e atacarejos no debate

Outro trecho da entrevista abordou a discussão sobre a venda de medicamentos no varejo alimentar, tema liderado por entidades do setor supermercadista.

Belmiro afirmou que apoia o pleito de permitir a instalação de farmácias dentro de supermercados e atacarejos, seguindo regras sanitárias e com presença de farmacêutico, no modelo conhecido como store in store.

No Congresso, propostas sobre o assunto têm sido debatidas em audiências públicas e passaram por ajustes.

Em linhas gerais, a discussão evoluiu para permitir farmácias completas dentro das lojas, com separação física e observância das normas da Anvisa, em vez de simplesmente liberar medicamentos nas gôndolas.

O executivo argumentou que mais concorrência tende a beneficiar o consumidor final, especialmente em um país onde remédios também pesam no orçamento das famílias.

Microsoft no Brasil e investimento em nuvem e inteligência artificial

O Show Business ainda anunciou a participação de Priscila Laran, presidente da Microsoft no Brasil, em sua primeira entrevista na TV, com foco nas prioridades da operação local e no investimento divulgado pela empresa.

Em comunicado oficial de setembro de 2024, a Microsoft informou que pretende investir R$ 14,7 bilhões ao longo de três anos em infraestrutura de nuvem e inteligência artificial no país, além de iniciativas de capacitação em larga escala.

Com atacarejo em expansão, hipermercados pressionados por mudanças de mix e o debate sobre serviços dentro da loja ganhando força, qual será o próximo hábito de compra do brasileiro que pode redesenhar o varejo mais uma vez?

FONTE: CLICK PETRÓLEO E GÁS

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