Entre o mito popular e a violência concreta, como surgiu o personagem mais temido e admirado do sertão
Poucas figuras da história brasileira provocam tantas divisões quanto Lampião. Enquanto alguns o enxergam como um justiceiro social, outros o apontam como um criminoso impiedoso. Justamente por isso, entender quem foi o chamado Rei do Cangaço exige olhar além do mito e analisar o contexto social, político e econômico do sertão nordestino.
A informação foi divulgada por conteúdos históricos amplamente analisados por pesquisadores do cangaço, além de registros documentais e produções audiovisuais especializadas, conforme reportagens e estudos históricos publicados por veículos brasileiros ao longo das últimas décadas.
Nesse contexto, o cangaço não surgiu de forma isolada. Pelo contrário, ele se desenvolveu em meio à pobreza extrema, às disputas por terra, ao coronelismo e à quase ausência do Estado em vastas regiões do Nordeste. Portanto, antes de julgar Lampião, é necessário compreender o ambiente que possibilitou sua ascensão.
O cangaço no sertão: origem, sobrevivência e apoio popular

O cangaço se consolidou principalmente entre os séculos XVIII, XIX e início do século XX. O termo deriva da palavra “canga”, peça usada para prender bois a carros, numa analogia direta à forma como os cangaceiros carregavam armas e equipamentos pelo corpo.
Inicialmente, muitos cangaceiros eram camponeses pobres que perderam suas terras. Com o tempo, esses grupos passaram a viver no mato, dominando a caatinga, conhecendo pontos de água, trilhas ocultas e rotas de fuga estratégicas. Além disso, eles utilizavam táticas de guerrilha, o que dificultava a ação policial.
Ao mesmo tempo, parte da população pobre oferecia apoio aos bandos. Esses colaboradores, conhecidos como coiteiros, forneciam abrigo, alimento e informações. Por esse motivo, os cangaceiros conseguiam se esconder com eficiência e escapar de cercos frequentes. Ainda assim, embora alguns grupos realizassem ações pontuais de caridade, o cangaço também ficou marcado por roubos, sequestros, extorsões e assassinatos.
É exatamente nesse cenário contraditório que nasce Virgulino Ferreira da Silva.
De Virgulino Ferreira a Lampião: a formação de um líder

Virgulino Ferreira da Silva nasceu em 7 de julho de 1897, em Pernambuco, em uma família de lavradores com condição financeira considerada razoável para os padrões da região. Diferentemente de muitos sertanejos da época, ele aprendeu a ler e escrever. Além disso, desde jovem, acompanhava o pai no transporte de mercadorias pelo Nordeste.
Como consequência dessas viagens, Virgulino acumulou conhecimento profundo sobre caminhos, áreas de descanso e pontos de água em estados como Pernambuco, Ceará, Sergipe, Alagoas e Paraíba. Ao mesmo tempo, construiu relações com diversas famílias locais, algo que mais tarde se tornaria fundamental para sua sobrevivência no cangaço.
No entanto, disputas de terra mudaram completamente o destino da família Ferreira. Um vizinho influente, conhecido como Zé Saturnino, passou a usar seu poder político para tomar as terras da família. Por esse motivo, os Ferreira se viram obrigados a se mudar repetidas vezes, perdendo gado, propriedades e recursos.
Por fim, em 1921, a violência atingiu seu ápice quando José Ferreira, pai de Virgulino, foi assassinado. Nesse momento, Virgulino já vivia no mato e havia ingressado no bando de Sinhô Pereira, um dos cangaceiros mais conhecidos da época. A partir daí, sua transformação em Lampião se intensificou.
A ascensão do Rei do Cangaço e o uso da violência como estratégia
Dentro do bando, Virgulino aprimorou técnicas de combate, emboscada e camuflagem. Além disso, combinou esse aprendizado com o conhecimento territorial adquirido ao longo da juventude. Dessa forma, rapidamente se destacou entre os cangaceiros.
O apelido Lampião surgiu porque, durante os confrontos, ele disparava com tanta rapidez que o cano da arma parecia iluminar o ambiente. Em 1922, após a saída de Sinhô Pereira, Lampião assumiu o comando do grupo.
A partir desse ponto, os ataques se tornaram mais frequentes e agressivos. Lampião passou a invadir vilas, cidades e propriedades de grandes fazendeiros. Além disso, começou a enviar cartas exigindo pagamento sob ameaça de ataque. Quando se apropriava de bens com valor afetivo, exigia resgate para devolvê-los.
Ao mesmo tempo, sua rede de coiteiros cresceu. Consequentemente, mesmo com o envio de várias tropas policiais — as chamadas volantes —, a captura do bando se mostrou extremamente difícil. Para despistar a polícia, os cangaceiros invertiam pegadas, caminhavam em círculos e espalhavam boatos, inclusive de que Lampião havia morrido.
Auge, glamour e contradições do mito popular
Com o aumento da fama, Lampião passou a investir na própria imagem. Ele criou roupas extravagantes, usou punhais de prata e adotou um chapéu repleto de símbolos. Por esse motivo, muitos sertanejos passaram a vê-lo como um símbolo de poder, respeito e resistência.
Nesse auge, o bando chegou a reunir mais de 100 homens. Enquanto isso, o governo intensificou o combate ao cangaço. Ainda assim, Lampião continuou vencendo confrontos. Em um episódio marcante, seu grupo enfrentou cerca de 300 policiais. Embora cercados, os cangaceiros simularam rendição e, no momento em que os policiais avançaram, reabriram fogo e forçaram a retirada das tropas.
Por outro lado, apesar da violência extrema, Lampião mantinha forte ligação com a religião. Ele evitava atacar igrejas e respeitava pedidos de padres. Essas atitudes, ainda que pontuais, ajudaram a reforçar sua imagem de justiceiro social. No entanto, na prática, seus atos incluíram sequestros, assassinatos e ataques brutais.
Em um desses sequestros, Lampião exigiu um resgate equivalente a R$ 78 mil em valores atuais. Como o valor não foi pago integralmente, o episódio terminou em confronto armado.
Maria Bonita, declínio do bando e a queda em 1938

Durante o auge, Lampião conheceu Maria Gomes de Oliveira, então com 19 anos, no povoado de Malhada da Caiçara, em Sergipe. Casada, ela abandonou o marido e se juntou ao bando, tornando-se a primeira mulher a integrar oficialmente o cangaço. A partir de então, ficou conhecida como Maria Bonita.
Com sua entrada, o bando começou a mudar. Outros cangaceiros passaram a levar suas companheiras, o que tornou os deslocamentos mais lentos. Além disso, Lampião se mostrou mais sentimental, enfraquecendo sua liderança. Como consequência, surgiram conflitos internos e traições.
Finalmente, em 27 de julho de 1938, o bando parou para descansar em uma fazenda em Poço Redondo, Sergipe. Traídos por um informante, tiveram a posição denunciada. Na madrugada de 28 de julho de 1938, as volantes atacaram o acampamento de surpresa. Lampião, Maria Bonita e vários integrantes do grupo morreram. As cabeças foram decepadas e exibidas como troféus, marcando o fim definitivo do Rei do Cangaço.
Na sua visão, Lampião foi resultado da injustiça social do sertão ou um criminoso que usou o caos para justificar a própria violência?
FONTE: CLICK PETRÓLEO E GÁS





