Um extravasamento de lagoa ligada à empresa Gerdau colocou Miguel Burnier, distrito de Ouro Preto, no centro de uma nova polêmica ambiental em Minas Gerais. O caso teria ocorrido no último dia 5 de fevereiro, na localidade de Chrockatt de Sá (região da Vila Ema), quando fortes chuvas teriam provocado o transbordamento de uma lagoa, com possível carreamento de lama e material mineral para um curso d’água da região. O episódio levantou preocupações sobre impactos ambientais e eventual risco ao abastecimento público de água.
Diante das denúncias, a deputada federal Duda Salabert encaminhou ofício ao Ministério Público Federal (MPF), ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), à Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM), à Companhia de Saneamento de Minas Gerais (COPASA) e às prefeituras de Ouro Preto e Congonhas, solicitando apuração prioritária, realização de vistorias técnicas e coleta de amostras de água e sedimentos.
Vídeos e denúncias levantam suspeitas
A mobilização começou após denúncias divulgadas pela FLAMA (Frente Mineira de Luta das Atingidas e dos Atingidos pela Mineração) e o envio de vídeos por moradores, que mostram trabalhadores dentro do leito do córrego recolhendo material escuro e ensacando sedimentos. As imagens levantaram dúvidas sobre a natureza do material e a real dimensão do ocorrido.
Em comunicado à comunidade, a Gerdau confirmou que houve “transbordamento” da lagoa devido às chuvas, com duração aproximada de duas horas, mas afirmou que não houve rompimento de estruturas nem impactos às pessoas ou ao meio ambiente, sustentando ainda que a lagoa não teria ligação direta com o processo produtivo.
Moradores contestam versão oficial
Moradores da região, no entanto, questionam essa versão. Segundo relatos enviados à reportagem, as margens dos córregos estariam “cheias de lixo e minério”. Uma testemunha afirmou que estaria havendo bombeamento de água clara para dar aparência de normalidade ao local. “Estão bombeando água limpa para enganar quem está passando por lá.” O mesmo morador relatou que o problema teria começado com o rompimento de um “SUMP” — estrutura utilizada para retenção de sedimentos — localizado antes da lagoa principal, permitindo o carreamento de lama e rejeitos. Até o momento, essas alegações não foram confirmadas por laudos técnicos independentes.

Defesa Civil de Ouro Preto diz que não foi informada e constata irregularidade
Nossa reportagem buscou informações com diversos órgãos envolvidos. De acordo com a Defesa Civil, o transbordamento da Lagoa Sema, localizada em Chrockatt de Sá, ocorreu no dia 5. A Defesa Civil de Ouro Preto foi informada por meio de comunicação de terceiros. Como primeira medida, entrou em contato com um dos responsáveis da empresa Gerdau. E, no dia 8, a responsável pelas relações institucionais também comunicou oficialmente o ocorrido.
A equipe Defesa Civil esteve no local acompanhada do engenheiro Charles, quando foram constatadas irregularidades. Um relatório técnico será elaborado com os apontamentos verificados.Até o momento, não houve registro de danos materiais ou vítimas.
Resposta da Copasa
A Copasa informa que o abastecimento de água em Congonhas permanece normal e não foi afetado pelo extravasamento relatado. A Companhia realiza análises da qualidade da água captada no Córrego Macaquinhos a cada duas horas, a fim de monitorar qualquer alteração no manancial que demande ajustes no tratamento ou a interrupção do fornecimento. Até o momento, nenhuma irregularidade foi detectada. A Copasa ressalta, ainda, que segue monitorando rigorosamente qualquer risco de contaminação nos mananciais sob sua operação.
Resposta do MPMG
Emmanuel Levenhagen Pelegrini, Titular da 1ª Promotoria de Justiça de Ouro Preto, informou que foi instaurado o Procedimento Preparatório 02.16.0461.0342888.2026-38 para apurar as circunstâncias do transbordamento da lagoa localizada na Vila Ema, região de Crockett de Sá, de responsabilidade da empresa Gerdau, bem como verificar a existência de eventuais impactos ambientais, riscos residuais ou necessidade de adoção de medidas preventivas ou corretivas.
Em relação ao episódio informamos que equipe técnica da Secretaria Municipal de Meio Ambiente esteve no local para vistoria. Durante a inspeção, foi possível identificar o ponto por onde houve extravasamento de água, sendo visível o trajeto percorrido. Contudo, no momento da vistoria, não foram constatados indícios de carreamento significativo de sedimentos que tenham causado dano ambiental direto aos corpos hídricos, tampouco foram observados impactos ambientais materiais evidentes. Será lavrado auto de fiscalização solicitando à empresa que informe formalmente as causas do ocorrido e as medidas adotadas para evitar novos episódios. A Secretaria seguirá acompanhando o caso e adotará as providências cabíveis caso surjam elementos técnicos que indiquem a ocorrência de dano ambiental.
O Governo do Estado se omitiu às denúncias e não respondeu aos nossos questionamentos.





