×

Cidade brasileira é eleita melhor destino de turismo sustentável do mundo e supera Islândia e Nova Zelândia: região possui rios com visibilidade de 30 metros onde você enxerga cada peixe como em aquário, primeiro destino de ecoturismo carbono neutro certificado pela ONU, e modelo de preservação copiado por mais de 40 países

Bonito (MS) virou referência mundial em turismo sustentável ao conquistar o selo carbono neutro da ONU, preservar rios cristalinos com até 30 metros de visibilidade e criar um modelo de ecoturismo copiado por mais de 40 países.

Imagine flutuar sobre águas tão transparentes que você enxerga cada pedra, cada peixe, cada planta no fundo do rio a 30 metros de profundidade. Parece fantasia, mas é exatamente o que acontece em Bonito, cidade de 23 mil habitantes no Mato Grosso do Sul que virou referência mundial em turismo sustentável.

Em 2022, Bonito fez história ao se tornar o primeiro destino de ecoturismo do mundo certificado como carbono neutro pela Green Initiative, uma das 30 empresas certificadoras reconhecidas pela ONU. É resultado de mais de quatro décadas de trabalho meticuloso com preservação ambiental.

Bonito construiu um modelo de gestão turística tão inovador que hoje é estudado e copiado por mais de 40 países. O município foi eleito 18 vezes consecutivas como melhor destino de ecoturismo do Brasil, recebe cerca de 300 mil turistas por ano, e movimenta uma economia que depende em mais de 50% do turismo.

O rio mais cristalino do Brasil

O Rio Sucuri, a 19 quilômetros do centro de Bonito, é considerado um dos três rios com águas mais cristalinas do mundo. Pode ser comparado ao Vale Jiuzhaigou na China, ao Lago Königssee na Alemanha e às Ilhas Maldivas.

A transparência extrema é resultado da filtração natural pelas rochas calcárias da Serra da Bodoquena. A visibilidade subaquática chega a impressionantes 30 metros de profundidade horizontal, permitindo que você enxergue cada detalhe do fundo como através de vidro cristalino.

YouTube Video

Durante a flutuação, você desliza suavemente sobre as águas ao longo de 1.800 metros. O rio tem profundidade máxima de 3 metros, mas você não pode tocar o fundo com mãos ou pés. Essa regra rigorosa evita que sedimentos se levantem e destruam a transparência.

Um barco de apoio com monitor acompanha cada grupo de no máximo 8 pessoas. Você não precisa saber nadar porque o colete salva-vidas e a roupa de neoprene fornecem flutuabilidade natural. Crianças a partir de 4 anos podem fazer o passeio com os pais.

A cor da água varia de azul turquesa a verde-chá dependendo da luz do sol. As nascentes brotam do solo em fervedouros que parecem pequenos vulcões submersos. O passeio completo dura 2h30 e custa em média R$ 346 por pessoa.

O sistema de voucher único que virou modelo mundial

A inovação mais revolucionária de Bonito é um papel simples chamado voucher único, implantado em 1995. Ele mudou completamente a forma como o turismo funciona na cidade e hoje é copiado por dezenas de destinos.

Nenhum turista pode entrar em atrativos turísticos sem comprar esse documento oficial emitido pelas agências credenciadas. O voucher contém nome do visitante, data e horário exato do passeio, número de vagas e capacidade máxima permitida.

Cada atrativo teve sua capacidade de carga calculada por biólogos através de estudos técnicos detalhados. O Rio Sucuri permite no máximo 8 pessoas por grupo a cada 20 minutos. Quando as vagas esgotam, não entra mais ninguém naquele dia.

YouTube Video

Bonito controla com precisão cirúrgica quantas pessoas visitam cada atrativo a cada momento. Isso evita multidões se aglomerando e destruindo o lugar que vieram visitar.

O sistema desde os anos 1980 incluía medidas pioneiras. Obrigatoriedade de guias de turismo treinados em todos os passeios, licenciamento ambiental rigoroso e criação do COMTUR, que reúne poder público, setor privado e comunidade.

Bruno Wendling, diretor da Fundação de Turismo de MS, resume: “Bonito é o único destino do país que controla capacidade de carga de forma efetiva. Esse conjunto faz Bonito ser imbatível no ecoturismo sustentável.”Play Video

O sucesso inspirou outros destinos. Nobres no Mato Grosso, Fernando de Noronha e Chapada dos Veadeiros adotaram modelos parecidos de controle de visitantes.

Primeiro destino carbono neutro certificado pela ONU

Em dezembro de 2022, Bonito recebeu o certificado histórico de primeiro destino de ecoturismo do mundo a alcançar carbono neutro. A certificação foi resultado de processo técnico rigoroso conduzido pela Green Initiative durante meses.

O passo inicial foi dado em 2014 quando Mato Grosso do Sul publicou lei prevendo carbono neutralidade para todo o estado até 2030. Isso antecipou em duas décadas os compromissos do Acordo de Paris.

YouTube Video

Juliane Salvadori, secretária de Turismo, explica: “Foi trabalho tremendamente desafiador. O mais importante é continuar mantendo o esforço ano após ano.”

Além do município, a Estância Mimosa foi considerada o primeiro destino turístico do mundo “Climate Positive”. Isso significa que o sistema absorve mais carbono do que emite. Localizada em reserva com 420 hectares, apenas 35 são explorados para turismo.

Silvia Schmidt, do Hotel Paraíso das Águas, primeiro com certificado lixo zero do estado, desmonta o mito: “Fazendo gestão correta de resíduos, você diminui emissão de carbono. Mostra que é possível sem quebrar financeiramente.”

Os números que provam que funciona

Bonito recebeu em 2025 um total de 293.712 turistas, aumento de 1% em relação a 2024. O ano de 2023 foi o melhor da história com 313.316 turistas e 909.605 visitações, superando em 49,5% o ano de 2019.

A maioria dos turistas vem de São Paulo (34,95%), Paraná (9,09%), Rio de Janeiro (7,82%) e Santa Catarina (7,56%). Entre estrangeiros, destacam-se Paraguai (1,50%), Holanda (1,49%), EUA (1%) e Alemanha (0,96%).

O aeroporto regional registrou 36.388 desembarques em 2025, crescimento de 34,67% sobre 2024. Hoje três companhias operam: Gol de Congonhas, Azul de Campinas e Latam de Guarulhos.

A pavimentação da rodovia MS-345 finalizada em 2024 encurtou em 50 km o caminho entre Campo Grande e Bonito. A viagem ficou mais rápida e segura.

A taxa média de ocupação hoteleira foi 53% em 2025. Com 7 mil leitos e 500 casas para aluguel, Bonito poderia receber muito mais gente. Mas escolhe conscientemente não fazer isso porque lotação seria insustentável.

Por que cobra voucher obrigatório

Primeira razão: os atrativos não são praias públicas ou parques nacionais. São propriedades privadas onde donos investiram milhões para criar infraestrutura de qualidade com trilhas, pontes, vestiários, restaurantes e equipamentos de segurança.

Segunda: parte da receita vai para o Fundo Municipal de Turismo que financia projetos de preservação ambiental, manutenção de atrativos públicos como a Gruta do Lago Azul, campanhas educacionais e treinamento de guias.

Terceira: preços tabelados pela prefeitura impedem que cada vendedor cobre o que quiser, evitando concorrência desleal e turistas se sentindo enganados.

Quarta: o voucher com horários agendados é a única maneira de controlar a capacidade de carga respeitando limites ambientais calculados cientificamente.

Quinta: o custo alto reflete decisão deliberada de buscar turismo de qualidade com alto valor agregado ao invés de turismo de massa com baixa qualidade.

O prefeito Josmail Rodrigues resume: “Esse prêmio que ganhamos 18 vezes é resultado de trabalho intenso. Entramos para história como primeiro destino carbono neutro. Ainda temos desafios na conservação dos rios, mas estamos preparados.”

A experiência completa em Bonito

Quando você chega em Bonito, encontra cidade charmosa com atmosfera tranquila. O centro tem praça arborizada, ruas limpas e seguras, e restaurantes servindo gastronomia que mistura influências pantaneiras, paraguaias e brasileiras.

A vida noturna oferece barzinhos com música desde sertanejo até MPB e rock. Na avenida principal há lojas de artesanato regional com peças em madeira, cerâmica e tecidos inspirados na fauna local.

O coração são os mais de 50 atrativos turísticos espalhados pela região. As flutuações em rios como Sucuri, Rio da Prata e Nascente Azul são as atividades mais icônicas, permitindo que você flutue em aquários naturais.

Os balneários de água doce oferecem opção mais econômica para famílias. As cachoeiras como as 10 quedas da Estância Mimosa proporcionam cenários cinematográficos e piscinas naturais.

As grutas como a Gruta do Lago Azul, tombada pelo IPHAN em 1978, revelam formações geológicas com estalactites e estalagmites gigantescas. O Abismo Anhumas oferece rapel de 72 metros seguido de mergulho em lago subterrâneo.

As atividades de aventura incluem boia cross, arvorismo, tirolesas, trilhas de diferentes dificuldades, passeios de quadriciclo e mergulhos com cilindro para todos os níveis de experiência.

Desafios futuros que Bonito precisa enfrentar

Apesar do sucesso, Bonito não se acomoda. O maior desafio atual é a conservação dos rios que são o coração da atividade turística. Qualquer degradação na qualidade das águas destruiria o principal ativo da cidade.

O prefeito Josmail explica: “Ainda temos muitos desafios na conservação dos nossos rios. Já estamos desenvolvendo com o Estado um plano master de drenagem urbana para prevenir poluição e proteger nascentes.”

As mudanças climáticas globais representam ameaça real mesmo para destinos bem geridos. Alterações nos padrões de chuva e eventos extremos podem afetar os delicados ecossistemas aquáticos.

O crescimento populacional aumentará pressões sobre infraestrutura urbana, demanda por água tratada e coleta de esgoto. Isso exige planejamento cuidadoso e investimentos contínuos.

A expectativa crescente de turistas por experiências extraordinárias cria pressão para desenvolver atrativos novos. Mas isso precisa ser balanceado contra limites reais de capacidade de carga da região.

A educação ambiental de turistas com níveis variados de consciência ecológica exige trabalho pedagógico permanente dos guias. Eles explicam regras como não tocar animais, não alimentar peixes e não usar protetor solar antes da água.

O equilíbrio entre autenticidade cultural e demandas de turistas acostumados com comodidades urbanas é desafio permanente. A cidade busca não virar parque temático artificializado que perdeu seu caráter genuíno.

A dependência econômica do turismo, que representa mais de 50% da receita, cria vulnerabilidade. Qualquer evento que afete o setor pode devastar a economia local, sugerindo necessidade de diversificação.

A lição universal que Bonito ensina ao mundo

A história de Bonito é lição profunda sobre como desenvolvimento econômico e preservação ambiental podem coexistir. Quarenta anos atrás era cidadezinha desconhecida vivendo de agropecuária com futuro incerto.

Alguns visionários perceberam que as águas cristalinas poderiam ser ativos econômicos valiosos se geridos com foco em qualidade e sustentabilidade. Enfrentaram ceticismo, resistência da comunidade e falta de infraestrutura.

Mas persistiram. Investiram recursos limitados, educaram a comunidade sobre preservação, criaram o COMTUR, implementaram o voucher único e treinaram guias profissionais. Gradualmente construíram a reputação impecável reconhecida mundialmente.

O resultado é que Bonito hoje tem renda per capita superior à média do estado. Jovens encontram carreiras gratificantes sem migrar para grandes cidades. A comunidade valoriza preservação porque vê benefícios diretos.

A lição mais importante não tem a ver com características geográficas únicas. Tem tudo a ver com escolhas deliberadas que comunidades fazem sobre como valorizar e preservar ativos naturais.

Milhares de lugares têm rios bonitos, cachoeiras e florestas. Pouquíssimos transformaram isso em modelos sustentáveis porque falta disciplina para resistir ganhos rápidos, visão de longo prazo e coragem para implementar regras rigorosas.

Quando turistas de países desenvolvidos chegam em Bonito e ficam impressionados descobrindo que uma cidadezinha brasileira criou modelo mais eficiente que destinos europeus, isso valida que desenvolvimento sustentável é possível em qualquer contexto.

A mensagem final é clara e inspiradora. Preservação ambiental rigorosa e desenvolvimento econômico próspero não são objetivos contraditórios. São faces complementares que se reforçam quando geridas com inteligência, planejamento, cooperação e comprometimento genuíno com sustentabilidade de longo prazo.

FONTE: CLICK PETRÓLEO E GÁS

Receba Notícias Em Seu Celular

Quero receber notícias no whatsapp