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Na única cidade histórica de Minas onde músicos ainda tocam das janelas para quem escuta na rua

No alto da Serra do Espinhaço, a 1.280 m de altitude, casarões coloridos do século XVIII emolduram ruas de pedra onde a música ecoa sem amplificadores. Diamantina, a 292 km de Belo Horizonte, é Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO desde 1999, berço de Juscelino Kubitschek e da lendária Chica da Silva.

O diamante que moldou uma cidade diferente de todas as outras

O antigo Arraial do Tejuco surgiu por volta de 1722, quando exploradores encontraram diamantes nas margens do Rio Jequitinhonha. A corrida pelas pedras preciosas não favoreceu a formação de uma praça central de poder como em Ouro Preto. O resultado foi um casario sóbrio e homogêneo que o IPHAN tombou em 1938 e a UNESCO reconheceu 61 anos depois.

A Igreja de Nossa Senhora do Carmo guarda uma das histórias mais curiosas da cidade. Conta a tradição que o contratador João Fernandes de Oliveira mandou construir a torre nos fundos para que Chica da Silva, ex-escravizada e sua companheira, pudesse entrar no templo sem passar sob a torre, prática vedada a negros na época. Verdade ou lenda, o fato é que a torre de fato fica na parte traseira da construção.

A Vesperata e a serenata ao contrário

A Vesperata é o evento mais emblemático de Diamantina. Dezenas de músicos da Banda do 3º Batalhão da Polícia Militar e da Banda Mirim se posicionam nas janelas e sacadas dos casarões da Rua da Quitanda, enquanto o público assiste da rua. Dois maestros conduzem a apresentação do nível da calçada, e o som ecoa pelas vielas do centro histórico.

A prática de tocar das sacadas remonta ao século XVIII. A Vesperata moderna surgiu no início dos anos 1990, foi reconhecida como Patrimônio Cultural de Minas Gerais e premiada pelo Ministério do Turismo em 2010. Em 2026, as apresentações acontecem aos sábados entre abril e outubro. O concerto ao ar livre dura cerca de 2h30.

Diamantina é uma joia mineira que une história colonial, gastronomia e paisagens naturais da Serra do Espinhaço.

O que visitar no centro histórico e arredores?

Diamantina tem mais de 40 prédios tombados pelo IPHAN. O casario colorido, as igrejas barrocas e os passadiços suspensos compõem um cenário que mantém praticamente intacto o traçado urbano do século XVIII.

  • Passadiço da Casa da Glória: passagem suspensa que liga dois sobrados dos séculos XVIII e XIX, cartão-postal mais fotografado da cidade. Hoje abriga o Instituto Casa da Glória, da UFMG.
  • Casa de Juscelino Kubitschek: museu na residência onde o ex-presidente viveu na infância, com objetos pessoais, fotos e os violões que usava nas serestas.
  • Mercado Velho (Mercado dos Tropeiros): construído em 1835 com influência árabe na arquitetura, hoje vende artesanato e o famoso pastel de angu.
  • Igreja de São Francisco de Assis: na Praça JK, com talha barroca e pinturas no forro.
  • Caminho dos Escravos: trilha histórica de pedra que ligava o Arraial do Tejuco às lavras de diamantes.

Cachoeiras cristalinas no Parque Estadual do Biribiri

A natureza em torno de Diamantina complementa o roteiro cultural. O Parque Estadual do Biribiri preserva cerrado e cachoeiras acessíveis a partir da cidade.

  • Cachoeira da Sentinela: queda em meio ao cerrado, com poço para banho.
  • Cachoeira dos Cristais: piscinas naturais de areia branca e água transparente.
  • Vila do Biribiri: antigo núcleo fabril do século XIX, com casario preservado e restaurantes de comida mineira.
  • Gruta do Salitre: formações de arenito em um anfiteatro natural a poucos km da cidade.

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Pastel de angu e a cozinha do norte mineiro

A gastronomia une a tradição do norte de Minas Gerais com ingredientes do cerrado. O Mercado Velho e os restaurantes em casarões do centro são os melhores endereços.

  • Pastel de angu: massa de fubá recheada com carne moída, frita na hora. Iguaria obrigatória no Mercado.
  • Frango ao molho pardo: prato clássico mineiro, servido com angu e couve.
  • Feijão tropeiro e ora-pro-nóbis: dupla presente em praticamente todos os restaurantes regionais.
  • Queijo do Serro: produção artesanal do Vale do Jequitinhonha, patrimônio imaterial de Minas.
A 1.280 metros de altitude, essa cidade de 1713 encanta com casarões preservados, música nas sacadas e frio na serra
Diamantina é um berço cultural e patrimônio mundial, com ruas de pedra que contam histórias. // Créditos: depositphotos.com / [email protected]

Quando o clima favorece cada tipo de passeio?

A altitude garante noites frescas mesmo no verão. O período seco, de abril a outubro, é a melhor época para as Vesperatas e para curtir cachoeiras com água cristalina. No verão chuvoso, há risco de cabeças d’água.

Como chegar à terra de JK?

Diamantina fica a 292 km de Belo Horizonte pela BR-259 e BR-367, cerca de 5 horas de carro. Não há voos comerciais diretos. A cidade integra a Estrada Real e pode ser combinada com visitas ao Serro e a Milho Verde. Ônibus partem da rodoviária de BH com parada na cidade.

Suba a serra e ouça a música que vem das janelas

Diamantina é a cidade histórica mineira onde o patrimônio não está apenas nos museus. Ele se ouve nas sacadas, se prova no pastel de angu do Mercado Velho e se sente nas pedras do Caminho dos Escravos. A serra preservou o que o tempo costuma levar: a identidade.

Você precisa subir ao Espinhaço, sentar na Rua da Quitanda em uma noite de Vesperata e descobrir por que a terra de JK e Chica da Silva continua encantando quem aceita ouvir.

Fonte: Correio Braziliense

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