Policial denuncia assédio, vê agressor condenado seguir na ativa e relata perseguição interna, adoecimento psíquico e afastamento da corporação
“A lei não está dentro da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG)… Nada disso tem valor para quem sofre um crime dentro da instituição.” O desabafo é da policial civil Jaqueline Rodrigues, de 50 anos, que afirma ter passado de vítima a alvo na instituição após denunciar assédio sexual há quase seis anos — e enfrentar as consequências até hoje. O policial acusado foi condenado a um ano e dois meses de reclusão, em regime aberto, em primeira e segunda instâncias. E, enquanto ele recorre no Superior Tribunal de Justiça (STJ), segue trabalhando.
Por sua vez, Jaqueline não está mais na instituição. Ela afirma ter passado a sofrer perseguição interna, o que resultou em um diagnóstico de “delírio”, aposentadoria por invalidez e até na abertura de processos para sua expulsão da PC. Diante do desgaste, Jaqueline Rodrigues diz enfrentar problemas reais de saúde relacionados ao trabalho.
Um laudo psicológico emitido em 16 de março de 2026 pelo Centro de Referência Municipal em Saúde do Trabalhador (Cerest), em Belo Horizonte, ao qual a Itatiaia teve acesso, confirma o quadro. O documento aponta que a policial apresenta “adoecimento psíquico relacionado ao trabalho” e está em acompanhamento desde agosto de 2024.
Entre os diagnósticos estão depressão, ansiedade generalizada e estresse pós-traumático. O relatório também cita sintomas como crises de ansiedade, pânico, cansaço extremo e insônia. Em 2023, o caso da escrivã da Polícia Civil Rafaela Drummond — que deu nome à lei contra o assédio sancionada em 2024 —, encontrada morta em 9 de junho, trouxe à tona denúncias de sobrecarga, exaustão e assédio moral e sexual dentro da instituição. Ela tinha 31 anos e foi localizada na casa dos pais, em Antônio Carlos (Zona da Mata). A morte foi registrada como suicídio.
“Eles sempre vão transformar a vítima no problema… A forma que encontraram de minimizar o que está me acontecendo é me criminalizar e me revitimizar”, disse Jaqueline à reportagem.
Cultura do silêncio
Jaqueline contou que entrou na Polícia Civil em janeiro de 2018 e começou a trabalhar no interior, em Nepomuceno, no Sul de Minas. Depois, em novembro de 2019, foi transferida para Belo Horizonte, e passou a atuar no Departamento Estadual de Investigação de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) do Barreiro.
“Eu trabalhava no Homicídios Barreiro, no setor onde ocorria o maior número de homicídios. Eu trabalhava muito, mas nunca trabalhei tão feliz. Fiz muitas investigações, excelentes investigações, e o delegado me elogiava muito”, lembrou.
Segundo Jaqueline, a história mudou completamente após dois episódios graves, ocorridos em dias seguidos, em fevereiro de 2020. “Um dentro da viatura e outro na cozinha da delegacia”, relembra. Segundo ela, no primeiro caso, durante o retorno de uma escolta, o investigador Geraldo Modesto Brum, que dirigia o carro, fez manobras perigosas — como giros bruscos — e passou a bater repetidamente na perna de Jaqueline, enquanto fazia insinuações e perguntava se ela “lhe daria um abraço ou algo mais”.
No dia seguinte, dentro da delegacia, a situação se agravou: ela conta que ele a agarrou por trás, encostando o corpo e o rosto no pescoço dela. Jaqueline diz que passou meses sem contar o que aconteceu por medo de retaliação em um ambiente que considera machista. “Eu tinha vergonha de contar, acreditava que ninguém ia acreditar em mim, que a polícia ia me retaliar.”
Ela afirma que mudou de ideia em junho de 2020, ao saber que o suspeito poderia assumir a chefia da equipe após a morte do gestor anterior. “Eu entrei em desespero… Eu sabia que, quando ele assumisse a equipe, ia me retaliar ainda mais para que eu não contasse”, explica.
Logo, ela descobriu que Geraldo teria sido acusado por outras duas mulheres em outras unidades. Segundo a história contada a Jaqueline, quando trabalhava em Ribeirão das Neves, ele também teria assediado outra policial, de forma semelhante ao que fez com ela. “Mas não aconteceu nada. Só transferiram ele para BH, para o DHPP, sem registrar nada”, afirma. Jaqueline conta que, quando o caso veio à tona no DHPP, surgiram relatos de outras policiais.
“Me passaram o contato de várias meninas e disseram para eu ligar, porque elas também tinham passado por isso e poderiam ser testemunhas”, diz. Algumas aceitaram falar, mas outras pediram para não ter o nome envolvido. “Elas tinham medo e pediram para eu não tocar mais no assunto”, relata. Jaqueline contou que foi afastada das funções e transferida diversas vezes. Ela também relata tentativa de acordo para que desistisse da denúncia. “Eu disse que sou polícia e não protejo bandido”, afirma.
Da denúncia à condenação por importunação sexual
O caso de Geraldo foi levado à Corregedoria-Geral da PC. Segundo a vítima, a denúncia foi feita em junho de 2020, mas só foi encaminhada em 12 de janeiro de 2021. A denúncia foi confirmada, com aplicação de 45 dias de suspensão a Geraldo, além do encaminhamento do caso ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) por importunação sexual, crime que prevê pena de um a cinco anos de prisão.
Geraldo foi condenado a um ano e dois meses de reclusão, em regime aberto, pelo crime de importunação sexual. Em primeira instância, o policial recorreu e teve o recurso negado em segunda. Conforme apurou a Itatiaia junto ao TJMG, em seguida, Geraldo pediu a nulidade do processo, mas também não obteve êxito. Por fim, tentou recorrer em Brasília, porém o pedido foi apresentado fora do prazo.
Apelido de ‘touch screen’ e outras servidoras relatam assédio
Jaqueline não seria a única vítima. No relatório final da Sindicância Administrativa que apurou as condutas de Geraldo, datado de 26 de junho de 2023, uma servidora afirmou que, em 2018, foi encurralada em uma sala, onde ele teria fechado a porta e exigido um beijo sob ameaça. Já uma segunda colega relatou que o investigador fazia comentários sobre seu corpo e se aproveitava de momentos em que estavam sozinhos. Outra policial também descreveu comportamentos semelhantes, incluindo supostos elogios de cunho sexual. O documento aponta ainda que Geraldo tinha o apelido de “touch screen”, por “sempre estar nos tocando e abraçando”.
Servidora enfrenta PADs e afastamento
A investigadora afirma que foi aberto um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para expulsá-la da corporação, além de um processo criminal que a acusa de “violência psicológica”. Em outubro do ano passado, a servidora foi aposentada por invalidez pela perícia médica da PC. “Me aposentaram como se eu tivesse um transtorno de personalidade delirante, como se tudo o que estou denunciando fosse delírio meu, como se não estivesse acontecendo”, contou. Atualmente, Jaqueline afirma responder a mais de 30 procedimentos e processos.
Subnotificação e denúncias do Sindipol
A Itatiaia teve acesso a depoimentos do processo administrativo contra Jaqueline que indicam relatos semelhantes de assédio entre servidoras. Uma delas afirmou que a transferência de Jaqueline para o setor administrativo foi vista como “punição”. ‘Apenas 40% dos relatos de assédio são formalizados’, diz sindicato sobre PCMG. Wemerson Oliveira, representante do Sindicato dos Servidores da Polícia Civil de Minas Gerais (Sindipol), fala também sobre denúncias de outras servidoras. “É isso que está acontecendo. A lei não está sendo aplicada dentro da PC. Nenhuma norma tem valor — as normas integras, nem a Lei Rafaela Drumond. Nada disso tem servido para quem sofre algum crime dentro da PCMG”, finalizou.
O que diz a Polícia Civil
A PC informou, por meio de nota, que a Corregedoria atua com autonomia e dentro da legalidade na apuração de denúncias. No caso citado, as investigações são acompanhadas por diversos órgãos de controle e, até o momento, não foram encontrados elementos que comprovem as alegações da servidora. A instituição também afirmou que a aposentadoria seguiu critérios legais, não detalhou o caso por questões de privacidade e reforçou que não comenta processos em andamento.
O que diz o denunciado
A defesa de Geraldo Modesto Brum, representado pelo advogado Thiago Sellera, afirmou que ele continua em exercício na PC e que não há decisão definitiva que determine seu afastamento. Segundo o advogado, não existe condenação criminal com trânsito em julgado em relação a fatos ocorridos em Ribeirão das Neves. Sobre o caso envolvendo a policial Jaqueline Evangelista, a defesa confirmou que há condenação, ainda em fase de recurso, e disse confiar na reversão da decisão, alegando inconsistências no conjunto probatório e um suposto padrão comportamental da servidora.
Fonte: Itatiaia





