- Por Geraldo Vasconcelos
Há mães que acordam antes do sol — não por disciplina monástica, mas porque a vida lhes ensinou que o café precisa ferver antes da esperança esfriar. Há mães que atravessam a cidade em ônibus lotados carregando bolsas, marmitas, preocupações e um universo inteiro de afetos invisíveis. Mulheres que aprendem a transformar salário curto em dignidade comprida. Alquimistas da sobrevivência. Regentes silenciosas de lares onde, muitas vezes, a música da alegria precisa disputar espaço com o barulho das contas, da violência cotidiana, das ausências e dos medos.
E ainda assim… elas cantam.
Cantam quando penteiam os cabelos dos filhos. Cantam quando escondem a própria exaustão para não ferir o coração pequeno de quem ainda acredita que mãe é uma espécie de eternidade de avental. Cantam mesmo quando ninguém aplaude.
Talvez o mundo tenha compreendido pouco o significado profundo da maternidade. Durante séculos, exaltou-se a imagem da mãe-sacrifício, da mãe-santa, da mãe que suporta tudo em silêncio, enquanto se esquecia de enxergar a mulher inteira que existe ali: humana, inteligente, desejante, criativa, cansada, potente.
Há algo de profundamente injusto numa sociedade que floresce sobre o trabalho invisível das mulheres e depois lhes oferece apenas flores de um dia no calendário.
Porque ser mãe não deveria significar abdicar de si. Não deveria exigir o abandono dos próprios sonhos como pedágio para amar. Não deveria transformar cuidado em prisão.
As mães precisam de descanso. Precisam de políticas públicas. Precisam de segurança. Precisam do direito de existir para além da função materna.

E isso não diminui a beleza da maternidade. Ao contrário. Humaniza-a.
Existe uma espiritualidade imensa nas mães, mas não aquela espiritualidade de vitral imóvel e resignado. Falo da espiritualidade do pão repartido, da febre vigiada madrugada adentro, da mão que afaga enquanto o próprio coração desaba em silêncio. Uma espiritualidade de carne e lágrima. Uma fé cotidiana que não mora apenas nos templos, mas no gesto simples de continuar oferecendo ternura a um mundo frequentemente brutal.
Mãe é quem sustenta pontes quando tudo parece ruína.
E nem sempre essa maternidade vem do sangue. Há mães de afeto, mães-avós, mães-tias, mães-pais, mães adotivas, mães sociais, educadoras que acolhem almas, mulheres que gestam futuros sem jamais terem gestado biologicamente um filho. Há mulheres que maternaram comunidades inteiras sem receber sequer o nome de mãe.
O amor, felizmente, não respeita cartórios.
Neste Dia das Mães, talvez o maior presente não seja a homenagem pronta, a fotografia sorridente ou a frase perfumada de redes sociais. Talvez seja finalmente aprender a olhar essas mulheres em profundidade. Escutá-las. Dividir os pesos. Romper violências naturalizadas. Construir um mundo onde nenhuma mãe precise escolher entre alimentar os filhos e preservar a própria dignidade.
Porque toda vez que uma mãe é humilhada, violentada ou silenciada, a sociedade inteira adoece um pouco.
E toda vez que uma mulher consegue existir plenamente — com direitos, voz, autonomia, respeito e sonho — algo de sagrado floresce no mundo.
As mães nos ensinam isso diariamente: que a verdadeira força raramente faz barulho; que ternura também é revolução; e que cuidar da vida, em tempos tão ásperos, talvez seja o mais radical dos atos humanos.
Hoje, enquanto muitos entregam flores, talvez seja hora de oferecer também consciência.
Porque rosas são belas. Mas justiça, respeito e empatia duram mais.
- Uma homangem do site e jornal CORREIO DE MINAS





