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Festival da Quitanda faz da Romaria um retrato vivo da cultura popular de Minas

Entre o cheiro do biscoito de queijo assando e o aroma do café passado na hora, a Romaria de Congonhas amanheceu tomada, neste domingo, 17, pelos sabores da tradição mineira na 26ª edição do Festival da Quitanda. Bastava caminhar alguns passos para encontrar receitas que atravessam gerações, quitandas saindo do forno e histórias sendo contadas entre um gole de café e outro. A iniciativa foi promovida pela Prefeitura de Congonhas, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e da FUMCULT.

As barracas espalhadas pelo espaço serviram de pontos de encontro da cultura gastronômica mineira. Receitas guardadas há décadas, modos de preparo ensinados por avós e inovações que reinventam sabores tradicionais dividiram espaço em meio aos fornos, tachos e panelas fumegantes. O festival, que completa 26 anos, mostra por que se tornou um dos eventos mais afetivos e saborosos de Minas Gerais.

Há 18 anos participando da festa, Juraci de Barros chamou atenção ao unir tradição e criatividade em uma receita inovadora: o bolo feito com chá de congonha. A mistura, que carrega identidade e memória da cidade, despertou a curiosidade dos visitantes logo nas primeiras horas do evento. “Eu gosto de manter a tradição, mas também de criar coisas novas sem perder nossa essência. O chá de congonha faz parte da história da cidade e transformar isso em quitanda é uma forma de valorizar nossa cultura”, contou.

Já Alice Carvalho carrega no preparo das quitandas muito mais do que ingredientes. Participante desde a primeira edição do festival, ela mantém vivas receitas herdadas da avó, preservando sabores que resistem ao tempo e ajudam a contar a história das famílias mineiras. Em cada fornada, uma lembrança; em cada pedaço servido, uma herança cultural. “Essas receitas vieram da minha avó e da minha mãe. A gente vai aprendendo desde criança e hoje eu sinto orgulho de continuar isso aqui no festival. É uma emoção ver as pessoas provando e lembrando da própria infância”, relatou.

E quem passou pela Romaria encontrou muito mais do que comida. Encontrou encontros. Turistas vindos de cidades da região, de Araxá e até do Rio de Janeiro circularam entre as barraquinhas atraídos pela fama da culinária mineira e pelo acolhimento que toma conta de Congonhas durante o festival.

Morando há cerca de nove meses em Conselheiro Lafaiete, Débora Valeriano conheceu o festival pelas redes sociais e por indicação de amigos. A experiência, segundo ela, superou as expectativas. “É tudo muito tradicional, muito verdadeiro. A gente percebe que existe um cuidado em manter viva essa cultura passada de geração para geração. Já provei várias quitandas e achei maravilhoso”, afirmou.

Entre os espaços mais visitados, o tradicional Armazém voltou a reunir produtos que carregam o gosto da roça e da memória afetiva: doces caseiros, pimentas artesanais, queijos, feijão, fubá, linguiça caseira, melado de cana, requeijão com raspa e o inseparável café passado na hora, que parecia guiar os visitantes pelo aroma.

O festival também se transformou em um grande mapa gastronômico de Minas Gerais. Sabará, Itabirito com o famoso pastel de angu, São Gonçalo, Lagoa Dourada com seus tradicionais rocamboles, Piranga, Ouro Branco, Nova Lima, Entre Rios, Santa Bárbara do Tugúrio, Belo Vale, Itaverava, Conselheiro Lafaiete e Senhora dos Remédios trouxeram para Congonhas seus sabores, sotaques e tradições.

Além da gastronomia, a programação cultural ajudou a elevar a Romaria em um grande encontro das tradições mineiras. O domingo começou ao som do Grupo Alegria Sertaneja, levando clássicos da música raiz e canções sertanejas que embalaram o público logo nas primeiras horas da manhã.

O Grupo de Catira Solas de Ouro também chamou atenção ao unir dança, batidas marcadas e música sertaneja em uma apresentação que arrancou aplausos do público.Já o show de Viola ao Vento mostrou as músicas típica das festas do interior mineiro, trazendo modas de viola e canções tradicionais que fizeram muita gente cantar junto. Encerrando a programação musical, Mayara Rodriguez subiu ao palco com repertório sertanejo e colocou o público para acompanhar em coro os sucessos apresentados durante a noite.

Concurso de Quitandas

Valorizar o trabalho das quitandeiras e quitandeiros, responsáveis por manter vivas receitas que atravessam gerações, é cuidar de nossa gente e nossa cultura. O Festival da Quitanda é a vitrine destes empreendedores da economia criativa. E as melhores receitas ainda são premiadas no Concurso de Quitanda. Os jurados, que são chef’s, gestores de estabelecimentos da área gastronômica e jornalistas especializados, mais do que analisar sabores, tiveram a sensibilidade de reconhecer tradição, criatividade, o carinho e a dedicação de cada profissional da quitanda em seu ofício.

Téssia Gonçalves, representante da Empresa Mineira de Comunicação e apresentadora de programas da Rádio Inconfidência como “A Hora do Fazendeiro’, o programa mais antigo do rádio Brasileiro, há mais de nove décadas no ar, dá sua opinião como estreante como jurada no Festival da Quitanda de Congonhas. “Estou muito feliz por ter participado deste festival tão maravilhoso que existe em Minas Gerais. Ele, a exemplo do nosso programa ‘A Hora do Fazendeiro’, cumpre a missão de aproximar o homem do campo da cidade, valorizando os produtos e produtores rurais e fazendo nosso povo ser, cada vez, melhor”.

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Resultado do Concurso de Quitanda

  • Comércio Especializado
    Em 1º lugar, “Tortilha de Batata Doce”, do casal Floripes e Roberto Pinto, dos Produtos Bombaça, comunidade rural de mesmo nome no Alto Maranhão.

Em 2º lugar, “Trança de Ervas com Franco e Requeijão, da “Santo Pane”, de José Leopoldo.
Em 3º lugar, “Empada Aberta de Pão de Queijo com Porco no Café Passado”, da “Iguaria de Minas”, de Mariana Paulino.

  • Quitanda Regional
    Em 1º lugar, “Rocambole Olho de Sogra”, feito por Jaci de Oliveira, de Lagoa Dourada.
    Em 2º lugar, “Biscoito de Limão Siciliano”, de Janira Aganete, de Nova Lima.
    Em 3º lugar, “Pastel de Angu à Baiana”, de Cláudia Sueli Silva, de Itabirito.
  • Melhor estande
    “Divina Gula”, de Mércia Regina Silva.
  • Prata da Casa (em que concorrem apenas quitandas de Congonhas)
    Em 1º lugar, Francielle Resende Dias, com o casadinho de milho verde.
    Em 2º lugar, Sol de Maracujá, de Felipe José Vidal Evangelista.
    Em 3º lugar, Bolo de Pamonha, de Rosangela Rodrigues Freitas.

Franciele é bicampeã do Concurso de Quitandas do Festival da Quitanda, do qual participa há 15 anos. “Em 2026, pra mim, foi muito especial. Esta foi uma receita que eu demorei a elaborar. Estava um pouco desanimada sobre o que eu poderia criar, testei algumas outras receitas, e nada me agravada, até que tive a ideia do biscoito casadinho, uma massa gostosa, amanteigada, um recheio todo preparado por mim, a gente usa ingredientes sem pastas e conservantes, é o milho verde mesmo, o que dá um toque todo especial. Então, quando juntamos tudo com a finalização do coco ralado, deu neste prêmio. Pra mim e para todas as pessoas que estão comigo nessa, foi muito especial”.

Reconhecimento Nacional

Em breve, deverá ser anunciado outro reconhecimento, mas em âmbito nacional. O registro do ofício das quitandeiras de Minas Gerais como patrimônio cultural do Brasil, pelo Iphan, é aguardado com ansiedade, como ferramenta que fortaleça a economia criativa e reconheça as quitandeiras como importantes na formação cultural e histórica de Minas e do Brasil, como explica a historiadora e pesquisadora da cultura mineira e brasileira, Juliana Bonomo.

“Esta possibilidade surgiu a partir da minha pesquisa de mestrado e doutorado sobre o ofício das quitandeiras. Percebendo todo o trabalho que Congonhas faz com as quitandeiras, eu decidi conversar com a Secretaria de Cultura da Prefeitura de Congonhas para que ela fosse a proponente deste pedido de registro. Hoje [17/05/2026], o Iphan, que é o órgão nacional que cuida da patrimonialização desses bens culturais, esteve na Romaria para uma reunião conosco, a Prefeitura e as quitandeiras e nos foi dito que o órgão está em processo de finalização do inventário e que, possivelmente, em setembro ou, no mais tardar, no primeiro trimestre do ano que vem, o registro o registro será feito”.

Bonomo completa dizendo que “a patrimonialização é muito importante, principalmente porque ela vem com um plano de salvaguarda – políticas públicas de proteção cultural que garantam que este bem cultural não se perca e outras de valorização do ofício também sejam criadas e implementas e que somem forças para o trabalho das mulheres. Será também o reconhecimento em todo o território brasileiro de que as quitandeiras tiveram um papel muito importante na formação cultural e histórica de Minas Gerais e, conseguinte, do Brasil”.

Por Secretaria de Comunicação/ Prefeitura de Congonhas- Fotos: Prefeitura de Congonhas/Daniel Silva

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