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O fim de uma era: maior rede de hipermercados do Brasil foi extinta após a venda de 71 lojas por R$ 5,2 bilhões

Mudança estratégica no varejo brasileiro encerrou a trajetória do Extra Hiper após décadas de liderança no segmento, enquanto o avanço do atacarejo e a transformação dos hábitos de consumo levaram antigas lojas gigantes a se tornarem operações mais rentáveis, enxutas e adaptadas ao novo perfil do consumidor.

O GPA encerrou a operação do Extra Hiper em 2021 ao vender 71 pontos comerciais ao Assaí, em uma transação estimada em até R$ 5,2 bilhões, movimento que oficializou a saída do grupo do segmento de hipermercados no Brasil após décadas de liderança no varejo alimentar.

Longe de representar uma falência repentina, a decisão refletiu uma mudança estratégica em um mercado que já havia deixado para trás o auge das lojas gigantes, modelo em que o consumidor reunia alimentos, roupas, eletrodomésticos, brinquedos e serviços em um único endereço.

Durante muito tempo, o Extra Hiper simbolizou a experiência da compra completa e ajudou a consolidar o conceito de hipermercado no cotidiano de milhões de brasileiros espalhados por diferentes regiões do país.

Em várias cidades, a bandeira ficou associada a corredores extensos, carrinhos cheios, promoções de fim de semana e unidades capazes de concentrar em uma única visita aquilo que antes exigia diversos deslocamentos ao longo do mês.

Com o avanço do atacarejo, a expansão do comércio eletrônico e a busca crescente por preços mais baixos, o modelo começou a perder força diante de formatos considerados mais rápidos, próximos e eficientes para a rotina do consumidor atual.

Venda das lojas do Extra marcou mudança histórica no varejo

O anúncio ocorreu em 14 de outubro de 2021, data em que GPA e Assaí comunicaram ao mercado a operação envolvendo 71 lojas do Extra Hiper que seriam convertidas para o modelo de atacarejo em diferentes regiões do país.

Extra Hiper chegou ao fim após venda de 71 lojas ao Assaí em operação bilionária que mudou o varejo brasileiro.
Extra Hiper chegou ao fim após venda de 71 lojas ao Assaí em operação bilionária que mudou o varejo brasileiro.

Pelos termos divulgados na época, o Assaí assumiria os pontos comerciais enquanto o GPA receberia parte relevante dos recursos para reorganizar sua estrutura e concentrar investimentos em formatos considerados mais rentáveis e estratégicos.

Do valor total previsto, R$ 4 bilhões seriam pagos diretamente ao GPA em parcelas, enquanto aproximadamente R$ 1,2 bilhão estava relacionado à venda de imóveis próprios para um fundo imobiliário com garantias vinculadas ao Assaí.

Na prática, o GPA abriu mão de uma operação pressionada por custos elevados, manutenção complexa e margens menores, cenário que se tornou mais desafiador conforme os hábitos de consumo começaram a mudar rapidamente.

Ao mesmo tempo, o Assaí ganhou acesso a endereços considerados raros no varejo brasileiro, com áreas amplas, estacionamentos consolidados e localização estratégica em regiões urbanas onde seria difícil construir novas operações do zero.

Além disso, a transação acelerou uma tendência que já vinha sendo observada no varejo alimentar, onde lojas muito grandes deixaram de representar vantagem automática quando não conseguiam compensar despesas elevadas com equipe, energia, estoque e aluguel.

Como o Extra se tornou referência entre os hipermercados

A trajetória do Extra está diretamente ligada à expansão do grupo Pão de Açúcar, uma das empresas mais influentes da história do varejo brasileiro ao longo da segunda metade do século XX.

Fundado por Valentim dos Santos Diniz, imigrante português que inaugurou a Doceira Pão de Açúcar em São Paulo, em 1948, o grupo cresceu acompanhando o processo de urbanização acelerada vivido pelo país nas décadas seguintes.

Já em 1959, a empresa abriu seu primeiro supermercado em um período marcado pela transformação dos hábitos de consumo, quando as famílias passaram a buscar praticidade e concentração de compras em um único espaço.

Naquele contexto, o formato ganhou força justamente por reunir produtos que antes eram adquiridos separadamente em padarias, feiras, mercearias, açougues e pequenos armazéns espalhados pelos bairros.

Nos anos seguintes, o varejo brasileiro ganhou escala e passou a testar lojas maiores.

O grupo operou o Jumbo, bandeira associada ao conceito de hipermercado, antes de lançar o Extra em 1989, inicialmente em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.

O nome curto, forte e direto ajudou a construir uma marca popular.

O Extra prometia variedade, preço e praticidade, enquanto o Pão de Açúcar ocupava uma posição mais voltada ao público de renda mais alta.

Nos anos 1990, com a estabilização econômica após o Plano Real, o consumidor passou a comparar preços com mais clareza.

A inflação menor aumentou a importância de promoções, folhetos, campanhas de TV e fidelização.

O Extra cresceu nesse ambiente.

A bandeira se tornou familiar para milhões de brasileiros e, em algumas unidades, chegou a operar 24 horas, reforçando a imagem de loja disponível para diferentes rotinas urbanas.

Avanço do atacarejo enfraqueceu modelo dos hipermercados

O enfraquecimento do hipermercado aconteceu de forma gradual e silenciosa, sem um único erro capaz de explicar sozinho por que o modelo perdeu espaço dentro da nova dinâmica do varejo brasileiro.

À medida que o consumidor encontrou alternativas mais adequadas para diferentes tipos de compra, o hipermercado deixou de ocupar a posição central que manteve durante os anos 1990 e início dos anos 2000.

Para abastecer a casa, o atacarejo passou a oferecer preços competitivos e operação mais enxuta, enquanto supermercados menores e lojas de bairro ganharam força nas compras rápidas do cotidiano.

No segmento de eletrônicos, eletrodomésticos e itens de maior valor agregado, marketplaces e varejistas digitais ampliaram a comparação de preços e reduziram a dependência da loja física tradicional.

Como consequência, o hipermercado perdeu parte do apelo que antes justificava grandes deslocamentos, já que a conveniência deixou de significar reunir tudo no mesmo prédio e passou a envolver rapidez, proximidade e economia.

O Assaí foi um dos principais beneficiados dessa mudança.

A rede, que havia sido separada do GPA em cisão concluída em 2021, já crescia no atacarejo e encontrou nas antigas lojas do Extra uma oportunidade de expansão rápida.

As conversões mostraram por que os endereços eram valiosos.

Em 2023, o Assaí informou que as unidades convertidas vendiam múltiplos superiores ao antigo desempenho como hipermercados, com avanço relevante em faturamento após a mudança de formato.

O que aconteceu com a marca Extra após o fim do hipermercado

O fim atingiu especificamente o Extra Hiper, a bandeira de hipermercados.

O nome Extra continuou ligado a outros formatos e canais do GPA, como supermercados, minimercados e operação digital de alimentos.

Ainda assim, a parte mais simbólica da marca deixou de existir. O Extra que marcou época era o hipermercado de grandes áreas, corredores extensos, seções variadas e compra mensal concentrada em uma única visita.

A decisão do GPA mostrou que o valor daqueles pontos comerciais já não estava necessariamente na bandeira, mas na localização, na metragem e na capacidade de adaptação a um modelo mais rentável.

O caso também resume uma virada do varejo brasileiro. A loja gigante, que durante anos representou modernidade e abundância, foi substituída por formatos voltados a preço, eficiência operacional e maior giro de mercadorias.

FONTE: CLICK PETRÓLEO E GÁS

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