Em meio à vastidão da histórica Estrada Real, que conecta cidades mineiras carregadas de memória e tradição, um esforço solitário tem chamado a atenção dos moradores entre Conselheiro Lafaiete e Ouro Branco. Célio Santos, ativista cultural da região, assumiu para si uma missão que deveria ser de gestão compartilhada: a manutenção e limpeza dos totens que servem de marco orientador para viajantes e turistas na antiga rota.
O que parece ser uma simples tarefa de roçada e limpeza de vegetação encobre uma pauta muito mais profunda: o debate sobre a preservação do patrimônio histórico brasileiro. Os totens, instalados como símbolos de orientação e identidade da Estrada Real, frequentemente se encontram cobertos por mato alto, invisibilizados pelo abandono ou pela falta de manutenção periódica das esferas públicas responsáveis.




Para Célio, a limpeza é um ato de resistência e um convite à reflexão. Ao registrar suas intervenções em vídeo e compartilhar com a comunidade, ele expõe a precariedade da conservação desses marcos e cobra uma postura mais ativa das secretarias de turismo dos municípios. “Eu disse a eles: toda cidade que passa a Estrada Real, a secretaria de turismo tinha que fazer a limpeza desses totens”, afirma o ativista, em um desabafo que ressoa a insatisfação de muitos que prezam pela conservação histórica.
O zelo como dever compartilhado
A atuação de Célio Santos toca em um ponto nevrálgico da gestão pública: a fragilidade da manutenção de bens culturais quando delegada exclusivamente a órgãos oficiais. Sem a devida vigilância, o patrimônio degrada-se rapidamente. A iniciativa de Santos, no entanto, não é apenas um protesto, mas uma tentativa de engajamento social. Ao buscar apoio de outros profissionais da região — dentistas, fotógrafos e demais cidadãos —, ele tenta articular uma rede de cuidado que transcenda o setor público.
A estratégia de Santos é clara: ele entende que, quando um ponto da estrada é limpo e cuidado, o turista e o morador local passam a enxergar aquele lugar sob uma nova ótica, gerando um efeito dominó de valorização. O ativismo de Célio transforma, na prática, a sinalização de trânsito em um museu a céu aberto, onde cada totem preservado conta um capítulo da história de Minas Gerais.
A pergunta que fica, diante do esforço do ativista, é sobre a sustentabilidade desse modelo de preservação. Até que ponto o ativismo voluntário pode suprir lacunas da gestão pública e em que momento o poder municipal deve oficializar essa parceria, transformando o voluntariado em uma política cultural estruturada e perene? Enquanto essa resposta não vem, Célio Santos segue, por conta própria, garantindo que os caminhos da história não se percam sob a vegetação do esquecimento.




