Por Geraldo Vasconcelos
Joguei futebol até os dezoito anos. Como milhares de meninos brasileiros, habitei durante algum tempo aquela delicada fronteira entre o sonho e a ingenuidade. Habitei campos de terra e gramados de esperança, aprendi a distinguir o cheiro da chuva e conheci a liturgia dos domingos, quando o mundo parecia caber entre quatro linhas e noventa minutos.
Antes dos palcos, dos corais, dos teatros e das partituras, houve os estádios. Houve o rádio encostado no ouvido dos adultos, houve a televisão cercada de cadeiras improvisadas, houve a crença quase religiosa de que, quando a seleção brasileira entrava em campo, entrávamos todos com ela.


Naquele tempo, a camisa amarela não era um produto. Era uma espécie de pátria portátil. Lembro-me de quando acreditávamos que a seleção nos pertencia. Não porque ela fosse perfeita, mas porque parecia carregar algo que era nosso: a mistura improvável de improviso e beleza, de sofrimento e alegria, de arte e sobrevivência. O futebol brasileiro era, talvez, a única ocasião em que o país inteiro conseguia sonhar o mesmo sonho ao mesmo tempo.
Hoje, porém, suspeito que aquele país já não entra mais em campo. O que vemos vestir as cores nacionais é uma estrutura empresarial sofisticada, globalizada e extraordinariamente lucrativa, que aprendeu a utilizar símbolos afetivos como ativos financeiros. A camisa continua amarela. O hino continua sendo executado. A bandeira continua tremulando. Mas há momentos em que tudo isso se parece mais com cenografia do que com pertencimento.
Quando a seleção perde, ouvimos imediatamente a frase ritual: “o Brasil volta para casa”. E sempre me pergunto: qual Brasil? O Brasil que acorda às cinco da manhã para trabalhar? O Brasil que improvisa traves com chinelos nas periferias? O Brasil das crianças que ainda acreditam que um drible pode ser uma forma de poesia? Ou o Brasil dos contratos milionários, dos conglomerados de mídia, dos patrocinadores internacionais e dos acionistas invisíveis?
Talvez seja preciso dizer, ainda que doa: o Brasil não entrou em campo. O Brasil ficou do lado de fora do estádio. Os atletas que admiramos tornaram-se, muitas vezes, mais do que jogadores: transformaram-se em ativos de mercado, plataformas publicitárias, peças de um sistema econômico que movimenta cifras tão gigantescas que a bola, por vezes, parece ser apenas um detalhe operacional.
Ao redor do campo, multiplicam-se os anúncios das empresas de apostas, das fabricantes de equipamentos esportivos, das cervejarias, dos patrocinadores globais. O espetáculo prospera. Os dividendos prosperam. O marketing prospera. Apenas o futebol, esse velho artesão da alegria popular, parece definhar silenciosamente em algum canto do gramado.

Há algo profundamente triste em perceber que as cores que aprendemos a amar não pertencem a nenhuma empresa. Elas pertencem à memória coletiva. Pertencem às ruas pintadas de cal, às bandeirinhas atravessando bairros inteiros, às vozes roucas dos nossos pais e avós narrando Pelé, Garrincha, Tostão, Sócrates, Falcão e tantos outros artistas da bola.
Porque houve um tempo em que o futebol brasileiro não produzia apenas jogadores. Produzia imaginação. Talvez seja por isso que a derrota de hoje provoque uma tristeza diferente. Não é a dor esportiva. Derrotas sempre existiram. O que dói é a sensação de exílio. O torcedor olha para o campo e já não se reconhece naquela narrativa. A partida acontece, mas a identidade parece ausente.
No entanto, ainda não acredito na morte do futebol brasileiro. O futebol verdadeiro continua respirando. Está nos campos de várzea ameaçados pelo concreto. Está nos professores que ensinam cooperação antes da vitória. Está nos treinadores anônimos que formam seres humanos antes de formar atletas. Está no menino que joga descalço sem imaginar que, em algum escritório climatizado, existem pessoas transformando seu sonho em produto financeiro.
E talvez esteja, sobretudo, na memória. Porque a memória, quando preserva a beleza, também preserva a possibilidade de futuro. Precisaremos, um dia, devolver o futebol aos futebolistas, aos torcedores, às comunidades, às escolas, aos bairros e às praças. Precisaremos reaprender que lucro não pode ser a finalidade de tudo que os seres humanos amam. Precisaremos recuperar a ideia revolucionária de que certas coisas existem para produzir sentido, e não apenas dividendos.
Não foi o Brasil que perdeu. Quem perdeu foram aqueles que imaginaram ser possível administrar a paixão sem compreender a alma que a produz. O Brasil continua do lado de fora do estádio. Esperando. Talvez triste. Talvez decepcionado. Mas ainda carregando, em algum lugar secreto da memória, a esperança de que a bola volte a ser redonda, a camisa volte a ser povo e o futebol volte, finalmente, para casa.



