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Após sucessivos prejuízos bilionários, Governo Lula põe à venda histórica sede dos Correios no Centro do Rio

Com quase 10 mil metros quadrados e ocupando um quarteirão inteiro no Centro do Rio, a histórica sede dos Correios, construída em 1878 e há 148 anos um dos marcos arquitetônicos da cidade, poderá ser arrematada por lance mínimo de R$ 47,8 milhões no leilão marcado para 30 de julho.

O Governo Federal colocou à venda um dos edifícios mais simbólicos da história das comunicações brasileiras, construído no Segundo Reinado. A antiga sede nacional do Correio Geral, na Rua Primeiro de Março, 64 – antiga Rua Direita – será leiloada no próximo dia 30 de julho, em meio à mais grave crise financeira enfrentada pelos Correios em muitos anos. É o que mostra o site VIP Leilões, onde também podem ser encontrados vários outros imóveis da estatal à venda, como a antiga agência filatélica da rua da Quitanda, junto à Assembléia.

Mas não se trata de mais um imóvel administrativo incluído numa lista de desmobilização patrimonial. Erguido ainda durante o Império, o prédio foi construído especificamente para abrigar os serviços postais brasileiros e, durante quase um século e meio, permaneceu associado à própria imagem dos Correios no país. É, para a estatal, algo comparável ao que a sua sede histórica representa para a Santa Casa da Misericórdia ou o que um antigo palácio legislativo representa para a instituição que nele funcionou.

A decisão de aliená-lo é tomada pelo Governo Federal depois de uma rápida deterioração dos resultados da empresa. Os Correios apresentaram lucros entre 2019 e 2021, voltaram ao vermelho em 2022 e passaram a acumular perdas cada vez maiores nos anos seguintes. Em 2024, o prejuízo chegou a aproximadamente R$ 2,45 bilhões. Em 2025, saltou para cerca de R$ 8,46 bilhões.

É nesse cenário que o edifício eclético de cinco pavimentos vizinho ao CCBB e à Casa Brasil – entre outros imóveis notáveis do Conjunto Tombado Nacional da Praça XV – vai a leilão. O imóvel possui área construída estimada em 9.059,81 metros quadrados e terreno de 1.585,30 metros quadrados. Ocupa sozinho todo um quarteirão delimitado pelas ruas Primeiro de Março, do Rosário e Visconde de Itaboraí, além da Travessa Tocantins, próximo ao mar e ao Polo Gastronômico.

O valor inicial de venda foi fixado em R$ 53.598.124,72. Caso não apareça comprador nas primeiras etapas, o imóvel poderá chegar à terceira rodada com lance mínimo de R$ 47.798.383,94. O edital informa ainda que existem pendências de regularização registral e divergências entre as áreas constantes do cadastro municipal e do registro imobiliário. Essas providências, assim como os respectivos custos, ficarão sob responsabilidade do futuro comprador.

O prédio integra o conjunto histórico protegido do Centro do Rio e qualquer intervenção, mudança de uso ou retrofit dependerá da aprovação dos órgãos responsáveis pela preservação. Isso significa que, independentemente de quem venha a adquiri-lo, sua arquitetura deverá ser respeitada.

Isso não significa que a transferência à iniciativa privada seja necessariamente uma condenação. Um novo proprietário pode justamente oferecer ao prédio o investimento e o uso que o poder público deixou de garantir. A questão levantada pela venda é outra: se o Governo Federal deveria mesmo abrir mão daqueles que é sem sombra de dúvida o maior símbolo arquitetônico da história dos Correios no Brasil.

Um palácio construído para os Correios do Império

O edifício foi inaugurado em 1878, durante o reinado de Dom Pedro II, numa época em que a Rua Primeiro de Março ainda era um dos grandes eixos políticos, comerciais e administrativos da capital do Império. Ali estavam o Paço Imperial, igrejas, repartições públicas, bancos, casas de comércio e instituições que ajudavam a conduzir a vida do país.

O projeto original é atribuído ao engenheiro e arquiteto Antonio de Paula Freitas, um dos nomes mais importantes da engenharia imperial. O edifício nasceu com três pavimentos e um mezanino, numa concepção monumental que traduzia a importância crescente dos serviços postais para um território de dimensões continentais. Posteriormente, recebeu alterações associadas a Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, além de ampliações realizadas para acompanhar o crescimento dos Correios e dos serviços telegráficos.

Era o primeiro grande edifício brasileiro concebido especialmente para concentrar os serviços postais. A arquitetura não servia apenas a uma necessidade burocrática. Ela procurava dar aos Correios uma presença física compatível com a ideia de um Estado moderno, capaz de ligar províncias, autoridades, comerciantes, famílias e jornais por meio de uma rede nacional de comunicações.

Ao longo do tempo, os três pavimentos originais foram ampliados, e o conjunto chegou à configuração atual, com cinco andares. Mudaram os governos, o regime político, as tecnologias e os hábitos de comunicação, mas o prédio permaneceu. Atravessou a queda da Monarquia, a República Velha, o Estado Novo, as reformas administrativas do século XX, a criação da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e, finalmente, o esvaziamento gradual de suas dependências. Antes, vale lembrar, o Correio era tão grande que ocupava também o Paço Imperial e o seu atual Centro Cultural, logo na esquina.

Por suas portas passaram cartas comerciais, documentos oficiais, mensagens familiares, encomendas e notícias que cruzaram o Brasil antes do telefone se tornar comum e muitas décadas antes do aparecimento da internet. Não é exagero dizer que parte da história privada e pública do país circulou por aquele quarteirão.

A antiga sede também compõe uma paisagem histórica que ainda conserva algumas das imagens mais conhecidas do Rio. De um lado está a Igreja da Candelária; poucos metros adiante aparecem a Praça XV, o Paço Imperial, as históricas Igrejas da Santa Cruz dos Militares, Lapa dos Mercadores e Carmo e o Arco do Teles. Nas vizinhanças, casarões, igrejas e antigos edifícios de escritórios narraram, em pedra, cal, ferro e madeira, as sucessivas vidas do Centro.

À venda justamente quando o Centro volta a ser procurado

Há uma ironia evidente na escolha do momento. O Governo Federal decidiu vender o prédio justamente quando a região começa a superar décadas de esvaziamento e volta a receber moradores, turistas, empresas, instituições culturais e investidores.

O Reviver Centro criou incentivos para a transformação de antigos edifícios comerciais em residências. O Reviver Cultural passou a estimular atividades capazes de manter a região viva também fora do horário comercial. Empreendimentos residenciais começam a devolver luz às janelas de prédios antes inteiramente vazios, enquanto o mercado corporativo registra queda da vacância, inclusive em edifícios antigos.

A Praça XV voltou a receber visitantes aos fins de semana. O movimento em torno do Arco do Teles, da Rua do Ouvidor, do Paço Imperial e da Orla Conde aumentou significativamente. Restaurantes, feiras, museus, igrejas e eventos culturais vêm atraindo novamente cariocas para uma área que durante anos parecia abandonada depois do expediente.

Foi também nessa região, nas proximidades da Candelária, que mais de dez edifícios foram vendidos recentemente para diferentes finalidades. Alguns receberão projetos residenciais ou hoteleiros; outros foram destinados a atividades educacionais e culturais. Entre os compradores está o Serviço Social do Comércio (SESC), que pretende instalar uma escola em um dos imóveis adquiridos no entorno.

Para Lucy Dobbin, superintendente de vendas da Sérgio Castro Imóveis, a antiga sede dos Correios reúne características praticamente inexistentes no mercado imobiliário carioca. Além de estar situada numa região em plena revitalização, “ocupa um quarteirão inteiro e possui janelas para os quatro lados”, característica que amplia as possibilidades de adaptação do imóvel para novos usos.

Segundo Lucy, o valor mínimo previsto para o leilão está relativamente compatível com a realidade do mercado. Em sua avaliação, imóveis com esse perfil hoje podem alcançar até R$ 4 mil reais por metro quadrado, o que faz com que o lance mínimo de aproximadamente R$ 47,8 milhões não represente uma venda por preço vil. “Está cerca de 10 a 15% mais caro que o mercado”, explica.

Ela observa ainda que há um interesse crescente de investidores por edifícios históricos, apesar do “medo que têm do Iphan”. Além do valor arquitetônico, muitos desses imóveis contam com incentivos fiscais importantes. Como destaca, “o IPTU no Centro é muito proibitivo”, razão pela qual construções protegidas acabam despertando maior interesse de grupos dispostos a investir em restauração e retrofit.

Além disso, Lucy chama atenção para outro fenômeno recente: o aumento do turismo e da presença dos próprios cariocas na região durante os fins de semana, movimento que vem fortalecendo restaurantes, hotéis, equipamentos culturais e novos empreendimentos instalados no Centro.

Entre a preservação da memória e a necessidade de dar uso

A venda da antiga sede dos Correios também reacendeu um debate antigo entre arquitetos e especialistas em patrimônio: afinal, o que preserva melhor um edifício histórico, a permanência nas mãos do poder público ou a garantia de que ele tenha uma utilização economicamente viável?

Para o arquiteto e urbanista Carlos Fernando Andrade, ex-superintendente regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Rio de Janeiro, a resposta não passa necessariamente pelo regime de propriedade. Segundo ele, “o regime de propriedade de um imóvel, por si só, não é garantia nem de sua manutenção nem da sua desgraça”. Em outras palavras, existem exemplos de imóveis públicos abandonados – veja-se a desastrosa administração imobiliária da UFRJ – e de imóveis privados cuidadosamente restaurados — e também o contrário.

Na avaliação de Carlos Fernando, a questão central é assegurar que o edifício tenha uma ocupação compatível com sua importância histórica e arquitetônica. Como costuma dizer, “imóvel vazio é oficina do diabo”. Sem uso permanente, explica, qualquer construção acaba sofrendo com infiltrações, depredações, furtos, falta de manutenção e deterioração progressiva.

Isso, entretanto, não significa que qualquer projeto seja aceitável. O arquiteto ressalta que a adaptação de um prédio histórico deve preservar justamente aquilo que lhe confere valor. Como adverte, “não adianta dar um uso acabando com aquilo que ele tem de essencial na arquitetura”. O desafio, segundo ele, é transformar o imóvel em um patrimônio útil, vivo e economicamente sustentável, sem descaracterizar sua identidade.

A arquiteta Leila Marques, doutora pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e conselheira do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), enxerga a questão por outro ângulo. Para ela, a antiga sede dos Correios “não pode ser tratada como um simples ativo imobiliário”, pois representa um “bem de excepcional valor histórico, arquitetônico e urbano”.

Na avaliação de Leila, edifícios dessa natureza extrapolam seu valor financeiro porque carregam parte da memória institucional do país. Ela observa que a preservação física da construção, embora indispensável, não resolve sozinha a questão da memória coletiva. Há, segundo a arquiteta, “um risco concreto de perda da memória coletiva” quando uma instituição pública deixa definitivamente o imóvel que simbolizou sua própria história durante quase século e meio.

Ela lembra que outros edifícios públicos brasileiros despertam discussões semelhantes justamente porque seu significado vai além da arquitetura. São construções que ajudam a contar a história do Estado brasileiro e das instituições que ali funcionaram por gerações.

As duas análises não são necessariamente incompatíveis. Carlos Fernando chama atenção para a urgência de afastar o edifício do abandono e garantir-lhe uma função capaz de financiar sua conservação ao longo das próximas décadas. Leila, por sua vez, alerta que essa solução não deveria fazer desaparecer o vínculo histórico entre o imóvel e a instituição para a qual ele foi concebido.

O historiador Paulo Knauss de Mendonça, ex-diretor do Museu Histórico Nacional e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que o antigo prédio dos Correios possui valor histórico não apenas por sua arquitetura e antiguidade, mas também pelo contexto urbano em que está inserido. Para ele, embora a venda possa representar uma oportunidade de devolver vida ao edifício, “é uma pena que o Estado não destine o bem público para uma finalidade socialmente mais interessante”. Em sua avaliação, o imóvel poderia integrar um plano estratégico de revitalização do Centro, recebendo atividades ligadas à economia criativa, ao mercado editorial ou ao comércio de antiguidades. Como resume, “o patrimônio cultural urbano deve ser tratado como elemento estratégico do desenvolvimento das cidades e do ambiente construído”.

No fundo, o debate provocado pelo leilão vai além da simples venda de um prédio. Ele coloca em discussão como o Brasil pretende preservar parte de seu patrimônio arquitetônico: mantendo-o obrigatoriamente sob controle estatal ou encontrando formas de compatibilizar preservação, investimento privado e novos usos.

Independentemente do resultado do leilão, uma conclusão parece consensual entre os especialistas: o pior destino para um edifício dessa importância seria continuar fechado, vazio e sem perspectiva de ocupação.

Quando foi inaugurado, em 1878, o antigo Correio Geral simbolizava um país que buscava modernizar seus serviços públicos e integrar um território continental por meio da correspondência. Durante quase 150 anos, acompanhou mudanças de regime político, revoluções tecnológicas, reformas administrativas e profundas transformações urbanas no Centro do Rio.

No próximo dia 30 de julho, poderá iniciar um novo capítulo de sua história. Pela primeira vez desde o Império, o edifício poderá deixar de pertencer à instituição para a qual foi construído, encerrando uma ligação iniciada ainda no reinado de Dom Pedro II e abrindo espaço para um novo uso em uma região que, ironicamente, volta a viver um dos períodos mais promissores de sua história recente.

Fonte: Diário do Rio

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