Do avanço econômico no século XIX ao significado de ‘coisa’ no vocabulário mineiro, o trem se tornou símbolo de uma identidade construída ao longo do tempo
Em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, a cerca de 450 quilômetros de Belo Horizonte, a professora aposentada Perpétua de Jesus Luiz, de 84 anos, guarda na memória o tempo em que o apito da Estrada de Ferro Bahia-Minas marcava o ritmo da cidade. Oitava filha de uma família de 12 irmãos, ela cresceu às margens dos trilhos e viu a rotina do município mudar quando a ferrovia foi desativada, em 1966, após mais de oito décadas de operação.
O fim da linha, provocado pelo avanço do transporte rodoviário, pela queda da rentabilidade do café e da madeira e pelos altos custos de manutenção, interrompeu uma ligação histórica entre Ponta de Areia, em Caravelas (BA), e Araçuaí (MG). Para Perpétua, porém, a maior perda foi a do impulso que mantinha a região em movimento. “O desenvolvimento da cidade dependia da ferrovia. Depois disso, houve uma estagnação. Se voltasse a ter uma ferrovia ativa, seria maravilhoso para toda a região”, afirma.
A memória da Bahia-Minas também foi registrada pela música. Em “Ponta de Areia”, Milton Nascimento e Fernando Brant cantaram a ferrovia que “ligava Minas ao porto, ao mar” e fizeram da Maria-Fumaça uma lembrança que continua atravessando gerações. A trajetória da professora se mistura à própria trajetória de Minas Gerais, estado que teve nos trilhos um dos principais caminhos de integração territorial. No século XIX, quando as ferrovias chegaram ao Brasil, elas representavam a promessa de modernidade em uma sociedade ainda marcada por deslocamentos lentos, feitos em carros de bois, cavalos e tropas de mulas.
Em Minas, onde a produção agrícola e mineral enfrentava dificuldades de transporte e comunicação, os trens passaram a ser vistos como uma forma de aproximar cidades, facilitar o escoamento da produção e conectar o interior aos grandes mercados. “A ferrovia no século XIX era a grande novidade tecnológica, ao lado do telégrafo e do telefone. Talvez ela fosse equivalente ao que hoje é a inteligência artificial”, compara o professor Pablo Luiz de Oliveira Lima, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autor do livro Ferrovia, Sociedade e Cultura, de 1850 a 1930. Segundo o pesquisador, a chegada das locomotivas provocou um impacto profundo em uma sociedade acostumada ao ritmo lento dos animais de carga.
“De repente, testemunhar a chegada de grandes máquinas de aço em trilhos, alcançando velocidades bem maiores, transportando cargas bem maiores e agilizando as comunicações, tudo isso teve um impacto cultural muito grande naquela sociedade”, explica.
Dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) mostram que o Brasil possui 28.276 quilômetros de ferrovias. Desse total, 5.329 quilômetros estão em Minas Gerais, que lidera o ranking nacional de malha ferroviária, à frente de São Paulo, com 4.749 quilômetros. A expansão ferroviária transformou paisagens mineiras. Estações surgiram em cidades e distritos, com novos pontos de comércio, circulação de pessoas e desenvolvimento econômico.
A Estrada de Ferro Bahia-Minas, por exemplo, começou a ser construída no fim do século XIX e ligava o litoral baiano ao interior mineiro, chegando a Araçuaí. Ao longo das décadas, diferentes companhias formaram uma rede que conectava regiões como Zona da Mata, Sul de Minas, Central e Vale do Rio Doce. A promessa de uma grande rede ferroviária nacional, no entanto, não se concretizou. A expansão das rodovias, a falta de planejamento e as mudanças no modelo de transporte reduziram o protagonismo dos trens de passageiros.
“Durante muitas décadas, quase um século, a ferrovia realmente teve uma função muito significativa, modernizou muitos transportes, mas depois, na dinâmica do próprio capitalismo, ela acabou sendo substituída no Brasil pelo transporte rodoviário”, afirma Pablo Lima.
Para o professor, a previsão feita pelo engenheiro Cristiano Ottoni, ainda no século XIX, de que o Brasil teria uma ampla rede ferroviária, acabou não se confirmando. “Se nós e nossos filhos tivermos juízo, nossos netos terão uma rede ferroviária eficiente, muito moderna”, escreveu Ottoni em 1859. “Infelizmente, hoje nós não temos essa rede ferroviária tão eficiente para a população como um todo.”
A relação de Minas com o trem, porém, não ficou restrita aos trilhos e seguiu na linguagem. Uma conversa entre mineiros revela que “trem” deixou de ser apenas a máquina que circulava pelas ferrovias e passou a significar praticamente qualquer coisa. “Me passa esse trem”, “olha que trem bonito”, “esse trem é complicado”. Na boca do mineiro, a palavra ganhou diferentes sentidos e virou uma das marcas mais conhecidas do jeito de falar do estado.
Apesar da associação imediata com as locomotivas, a origem desse uso é mais antiga, conforme pesquisadores. O termo já fazia parte do vocabulário português antes da chegada do trem de ferro ao Brasil, em 1854. Em registros antigos, “trem” aparecia com o sentido de conjunto de objetos levados em uma viagem, bagagem ou comitiva.
Segundo o professor Marcelo Médes, dos cursos de Letras e Pedagogia da UNA, a palavra passou por um processo de ampliação de significado ao longo do tempo, tornando-se um recurso linguístico usado pelos falantes para substituir diferentes substantivos conforme o contexto. “Estudos de dialetologia e variação linguística mostram que o uso de ‘trem’ como sinônimo de ‘coisa’ não é exclusivo de Minas Gerais. Ele também aparece em regiões como Goiás e Tocantins, resultado das antigas rotas de povoamento e migração de famílias mineiras pelo interior do país”, disse.
Segundo ele, o termo não nasceu por causa da ferrovia, mas ganhou força dentro de uma tradição linguística preservada ao longo dos séculos. “O isolamento geográfico de Minas Gerais durante o declínio da mineração ajudou a cristalizar e preservar formas antigas do português que acabaram substituídas em outras regiões”, acrescentou.
Décadas depois do último apito da Estrada de Ferro Bahia-Minas, o trem continua presente em Minas Gerais. Para alguns, ele vive na lembrança das locomotivas que cortavam o interior. Para outros, permanece no cotidiano, em uma palavra que atravessou gerações e ganhou novos significados sem jamais abandonar sua origem: a de carregar histórias pelo caminho. “Hoje, o que ficou foram as lembranças e aquilo que conseguimos preservar no museu. Foi um período muito bom para a região e, por que não, a ferrovia pode voltar a ser uma possibilidade para o futuro”, conclui Perpétua.
FONTE: ITATIAIA




