GARIMPANDO NO ARQUIVO JAIR NORONHA – GARIMPANDO NOTÍCIAS 45

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GARIMPANDO NO ARQUIVO JAIR NORONHA

Avelina Maria Noronha de Almeida

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GARIMPANDO NOTÍCIAS 45

COISAS DA QUARESMA EM QUELUZ

Avelina Maria Noronha de Almeida

Eram várias, as superstições relacionadas com a Quaresma em Queluz: quem dançasse, fizesse festa corria o risco de ver ou virar mula-sem-cabeça ou lobisomem. Casar na Quaresma, nem pensar!

Neste período do século XIX que estamos focalizando, vamos falar hoje coisas que aconteciam naquela época, narradas por quem aqui residia, sendo testemunha ocular do comportamento de nosso povo.

Imagem da Internet

Francisco de Paula Ferreira de Rezende, por decreto de 30.10.1856, foi nomeado Juiz Municipal e de Órfãos em Queluz (atual Conselheiro Lafaiete), Minas Gerais, onde permaneceu até 1861, acumulando nesta cidade também o cargo de delegado de polícia.

Ele conta, em seu livro “Minhas Recordações”, que, em nossa terra, encontrou alguns costumes interessantes relacionados com a Quaresma. Um deles era a Serração da Velha, que ele assim descreve, embora ressaltando que nem sempre a memória ajudasse. Ele diz o seguinte sobre essa folia:

.            “.De três coisas, entretanto, me recordo: a velha é a quaresma que eles tratam de serrar; pois que esse brinquedo  tem lugar justamente no meio exato da quaresma; segundo que a velha faz um testamento exatamente como o de Judas em que se trata de satirizar os costumes ou antes algumas pessoas; e terceiro finalmente que este brinquedo terminava  por uma paródia mais ou menos perfeita de um enterro ou antes de um ofício solene de defunto, pois que, reunidos todos defronte da minha casa, no largo da Matriz,  com estandartes, luzes, e muitos deles vestidos de padres,  aí se conservavam um tempo imenso a cantarem lições e a praticarem algumas outras solenidades que são próprias daqueles ofícios.”

.            FRANCISCO DE  PAULA residia onde foi o antigo Forum, na Praça Barão de Queluz.

O relato que ele faz é muito sucinto, mas naturalmente o ritual devia ser  como o que geralmente se usava na região. A Serração da Velha consistia em ritos festivos oriundos das folias portuguesas e que aconteciam na quarta-feira da terceira semana da Quaresma no Brasil, no séculos XVIII, e desapareceram  mais ou menos nos anos 70 do século XIX. Era uma crítica ferina à figura das avós pela forma violenta que comumente usavam naquela época nos métodos de disciplinar as netas. No Rio de Janeiro, de acordo com as crônicas coloniais, as mulheres idosas ficavam quietinhas, escondidas em suas alcovas, não saindo às ruas enquanto não passavam os préstitos. Creio que aqui não se chegava e esses extremos.

Algumas fontes citam os seguintes rituais:

Em cima de um estrado há uma pipote onde dizem estar encerrada uma velha condenada ao suplício do serrote. Um homem com um serrote finge estar serrando o pipote. Enquanto isso, o povo canta:

.            Serra a velha, / Força no serrote. / Serra a velha /  Dentro do pipote.

..          Esta velha tem malícia, / Esta velha vai morrer. / Venha ver serrar a velha, / Minha gente, venha ver.

Serra, serra, serra a velha, / Puxa a serra, serrador, / Que esta velha deu na neta / Por lhe ouvir falar de amor.

Aí o serrador cantava com voz de falsete:

.Que castigo ela merece? / Dizei-me senhores meus.

.E a turba alvorotada repetia o canto inicial:

.Serra a velha,/ Força no serrote./ Serra velha / Dentro do pipote.

.Alguns autores acreditam que essa folia ainda é celebrada de forma cristianizada na “queima do Judas” e no “testamento do Judas”.

.Padre José Duarte de Souza, num livro inédito em que apresenta subsídios de pesquisas feitas em diversas fontes com vista a uma futura história de nossa cidade (sonho que ele, infelizmente, não teve tempo de realizar), focalizando as diversões populares em Queluz, no caso a “serração da velha”, diz que algumas mulheres “revoltadas e indignadas, xingavam e, às vezes, recorriam ao Juiz de Direito para proibir tal diversão. Durante o percurso pelas ruas ao clarão de tochas e lanternas, o povo cantava estes versos:

.Olha a velha de lá, / Abra a boca de cá, / Põe a mão na espada, / Vamos guerrear.

Quando ver (sic) a velha / Com cara de que chorou / A cachaça na venda / Já se acabou.

Quando ver ( sic)  a velha / Na porta sorrindo, A cachaça na venda, / Já está se medindo.

.Ao chegar ao Largo da Matriz, hoje praça Barão de Queluz, lia-se o testamento da velha, cujo alvo era satirizar os costumes e pessoas do lugar. Terminava por uma paródia mais ou menos perfeita de um enterro com estandarte, música e alguns vestidos de padre para a celebração solene das exéquias”.               Outro brinquedo utilizado na Quaresma chamava-se “Luiz ou Liz Teixeira”. Ia  um homem  carregado em uma padiola ou em um espécie de andor, acompanhado pelo povo em algazarra, o qual ia serrando uma grande cabaça, fazendo trejeitos e momices, despertando gritos de alegria dos acompanhantes que ia cantando pelas ruas e praças versos sobre a cachaça.

A cachaça boa / É de garrafão, / Bebe o afilhado, / Bebe o patrão.

A cachaça boa / É da garrafinha, Bebe a afilhada, / Bebe a madrinha.

A cachaça é boa, / Eu daqui não saio. / Aqui mesmo eu bebo, / Aqui mesmo eu caio.

O homem, que eles chamavam de Luiz Teixeira, em cada parada fazia um discurso sobre a cachaça.

Hoje as superstições esmaeceram na distância do tempo (embora aqui e ali ainda haja resquícios), porém, em seu lugar, encontramos outras atitudes que, graças a Deus, não estão em todas as pessoas: a descrença, a indiferença, o desrespeito.

Não podemos negar que havia uma  graça especial nos tempos de outrora!

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