No coração de Congonhas, parte da memória coletiva ameaça desaparecer. A Pensão do Jucão, testemunha de décadas de cultura, fé e convivência, resiste precariamente ao tempo e ao abandono. O prédio apresenta graves sinais de deterioração: paredes fissuradas, reboco desprendido e varandas de madeira comprometidas. Escoras e tapumes foram instalados para conter riscos imediatos, mas a estrutura ainda exige atenção urgente. A situação revela a fragilidade da construção e a urgência de uma ação efetiva de preservação.
Erguido provavelmente na década de 1920, no estilo art déco de inspiração francesa, o edifício da Rua Dr. Victor de Freitas já foi hotel, Pensão da Dona Alcina e sede do Congonhas Club e da Comarca. Por suas portas passaram romeiros vindos de trem, que ali encontravam repouso antes de seguir para o Jubileu. Nos salões, o conjunto Luar do Sertão embalava as noites da cidade e marcava época.
As fotografias de acervos particulares comprovam a transformação do edifício ao longo do tempo. Em registros de 2011, a fachada da antiga pensão ainda conservava traços originais e coloria a paisagem da Rua Dr. Victor de Freitas. Já nas imagens mais recentes, observa-se o prédio escorado por tapumes e com as varandas em ruína. O contraste entre o passado preservado e o presente em colapso evidencia o avanço da deterioração e reforça a urgência de medidas concretas de preservação.

A história
Na década de 1960, o Sr. Florisbelo Pereira — o Jucão — abriu a pensão que levaria seu nome, transformando o endereço em ponto de encontro da cultura popular. Grande incentivador do congado, manteve viva a festa em homenagem a Nossa Senhora, que tomava as ruas de maio e outubro, saindo dali em direção à Igreja do Rosário.
O imóvel, desapropriado pelo município, tem proteção apenas por integrar o conjunto urbano tombado pelo IPHAN em 1941. No âmbito local, porém, não há registro de tombamento específico. Curiosamente, o perímetro estabelecido em 2010 para o Núcleo Histórico de Congonhas vai da Rua Dr. Victor de Freitas à Avenida Governador Valadares, deixando de fora edificações de reconhecida relevância histórica, como o Hotel Jucão e o Hotel Vartuli.
Corrigir essa lacuna exigiria a elaboração de um novo dossiê de tombamento, capaz de ampliar a proteção ao patrimônio urbano. Nesse sentido, há uma iniciativa da Prefeitura para resguardar o núcleo urbano da Estação Ferroviária. O projeto pretende incluir as construções do entorno — entre elas o Jucão, o Vartuli e o antigo embarcadouro da Crusul — assegurando a conservação de um conjunto histórico mais amplo e representativo da cidade.
Entretanto, o prédio histórico não pode esperar; se nada for feito agora, restará apenas um monte de entulho onde, por décadas, pulsou vida, música, fé e tradição. Que o poder público intervenha para salvar a Pensão do Jucão antes que a última parede caia, pois, a memória não se reconstrói depois que desaba.
- Domingos T. Costa, historiador e membro do IHGC




