Segurança alimentar global, terras estratégicas e a nova centralidade do agro brasileiro nas decisões econômicas e geopolíticas
O Brasil entrou no radar internacional da segurança alimentar não apenas como grande produtor, mas como peça de peso em decisões estratégicas que envolvem abastecimento, soberania e disputas comerciais.
A avaliação ganhou força a partir de projeções citadas por agentes do mercado e por empresas do setor, que apontam o país como principal origem do incremento da oferta de alimentos nas próximas décadas.
Entre os números mais repetidos por analistas e executivos do agronegócio está a estimativa atribuída a estudos da Cargill, segundo a qual o Brasil responderia por 80% do crescimento do consumo global de alimentos nos próximos 20 anos.
Na prática, a projeção sugere que uma parcela majoritária da expansão do que será consumido no mundo dependerá de ingredientes produzidos em território brasileiro.
Segurança alimentar deixa de ser apenas questão produtiva
A discussão sobre segurança alimentar costuma ser apresentada como questão de produção e distribuição.
No entanto, o debate passou a incluir elementos típicos de política externa, como dependência de cadeias de suprimento, controle de rotas logísticas e previsibilidade regulatória.
Em cenários de tensões entre países, restrições comerciais e eventos climáticos extremos, alimentos e insumos agrícolas ganham peso semelhante ao de outros ativos estratégicos.
Nesse contexto, o Brasil reúne atributos que o colocam como fornecedor central.
O país combina escala produtiva, disponibilidade de áreas agrícolas, cadeia tecnológica adaptada ao clima tropical e capacidade de aumentar a produção por diferentes caminhos, incluindo ganhos de produtividade e expansão organizada de novas fronteiras.
Ao mesmo tempo, a necessidade de conciliar crescimento com proteção ambiental e previsibilidade jurídica passou a ser observada por compradores e investidores como parte do cálculo de risco.
Investidores estrangeiros ampliam interesse por terras no Brasil
O interesse por terras produtivas no Brasil tem sido apresentado por plataformas e consultorias do setor como uma consequência direta desse reposicionamento da comida na agenda global.
Um levantamento divulgado pelo portal de imóveis rurais Chãozão apontou aumento do apetite de estrangeiros por propriedades no país e destacou a liderança de investidores dos Estados Unidos entre as consultas feitas na plataforma.
De acordo com os dados reportados pela empresa, os acessos originados dos EUA passaram de 26% do total de consultas estrangeiras entre junho e dezembro de 2024 para 41% entre janeiro e julho de 2025.
No mesmo período, a plataforma informou que o interesse de norte-americanos por terras brasileiras cresceu 15% em comparação com o recorte anterior analisado.Play Video
Mesmo em meio a incertezas comerciais e à presença de tarifas elevadas em parte do comércio internacional, o comportamento descrito indica que investidores têm tratado propriedades rurais como ativo de longo prazo.
A lógica, segundo relatos do setor, se apoia na percepção de que terra produtiva e capacidade de produzir alimentos tendem a preservar valor em ambientes de instabilidade, desde que acompanhadas de infraestrutura mínima e segurança jurídica.
Centro-Oeste e Matopiba concentram atenção do mercado
Quando se observa a geografia do interesse, as consultas se concentram em regiões associadas a commodities agrícolas e pecuária.
Relatos do mercado citam o Centro-Oeste como destino preferencial para quem busca escala, especialmente em áreas com forte presença de soja e criação de gado bovino.
A região reúne logística voltada ao escoamento e histórico de produção intensiva, fatores valorizados por compradores e fundos.
Ao lado desse eixo tradicional, cresceu a atenção dedicada ao Matopiba, acrônimo formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
A região é frequentemente descrita por centros de pesquisa e por publicações especializadas como uma das principais fronteiras agrícolas do país, com avanço de grãos e fibras em áreas do Cerrado.
Parte do apelo do Matopiba está associada à expectativa de valorização de médio e longo prazo, combinada com aumento de produtividade e adoção tecnológica.
Ao mesmo tempo, o movimento intensifica o escrutínio sobre regularização fundiária, licenciamento ambiental e impactos sociais.
Terra produtiva passa a ser vista como ativo estratégico
O mercado passou a tratar terra rural com critérios que vão além do preço por hectare.
Produtividade comprovada, acesso à logística, oferta de energia, conectividade e regularidade ambiental passaram a pesar de forma decisiva na avaliação dos ativos.
Executivos do setor imobiliário rural reforçam que a terra produtiva deixou de ser apenas patrimônio ou expansão de fazenda.
Ela passou a ocupar posição de ativo estratégico global, conectada a cadeias de alimentos, indústrias de proteína, tradings e países importadores preocupados com estabilidade de oferta.
O interesse estrangeiro aparece com perfis variados.
Há investidores em busca de diversificação patrimonial, outros focados em renda operacional e aqueles que procuram exposição a um setor considerado essencial.
Também há brasileiros residentes no exterior que veem no agro uma forma de manter vínculo econômico com o país e proteger patrimônio.
Protagonismo global impõe oportunidades e desafios
A leitura de que o Brasil será ator-chave na segurança alimentar global amplia oportunidades econômicas.
A demanda crescente sustenta investimentos em produção, armazenagem, transporte e tecnologia.
Por outro lado, o protagonismo eleva cobranças por rastreabilidade, redução de emissões e transparência na origem dos produtos exportados.
A entrada de capital estrangeiro em terras e cadeias produtivas também intensifica o debate sobre governança, limites regulatórios e soberania sobre ativos estratégicos.
A discussão não se resume à atração de investimentos, mas aos critérios que garantirão expansão sustentável, competitiva e alinhada ao interesse público.
Se a comida passou a ocupar papel central nas decisões globais, como o Brasil vai equilibrar crescimento do agro, proteção do território e exigências ambientais sem perder protagonismo no abastecimento mundial?
FONTE: CLICK PETRÓLEO E GÁS



