Muito antes de Conselheiro Lafaiete ganhar o contorno urbano que hoje a caracteriza, a pequena comunidade da Passagem do Gagé já reunia famílias em torno da fé. Ali permanece de pé uma igreja erguida no século XVIII, testemunha silenciosa do ciclo do ouro, da antiga Estrada Real e das transformações que redesenharam a região ao longo de mais de dois séculos. É nesse cenário histórico que a comunidade volta a celebrar a tradicional Festa de Nossa Senhora do Rosário.
A festividade, marcada para o último fim de semana de agosto, vai muito além da programação religiosa. Ela representa a continuidade de uma herança cultural preservada por gerações, especialmente pelas guardas de Congado e pelas irmandades dedicadas a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e outros santos de grande devoção entre a população negra.
Embora o antigo povoado da Passagem do Gagé tenha praticamente desaparecido com o avanço da mineração e da industrialização da região, a igreja permaneceu como símbolo de resistência, identidade e memória coletiva. Ao redor dela continuam vivas manifestações que unem espiritualidade, música, dança e tradição.
A programação contará com missas, procissão em honra a Nossa Senhora do Rosário, barracas com comidas típicas, apresentações musicais e momentos de confraternização entre as famílias, mantendo uma celebração que atravessa gerações sem perder sua essência.
Nos últimos anos, Lafaiete também tem ampliado o olhar para a contribuição da população negra na construção de sua própria história. O fortalecimento de políticas de valorização do patrimônio cultural afro-brasileiro e o protagonismo de representantes do Movimento Negro em espaços públicos ajudaram a dar maior visibilidade a tradições que sempre existiram, mas que durante muito tempo receberam pouca atenção.
Celebrar a Festa de Nossa Senhora do Rosário na Passagem do Gagé é, portanto, mais do que participar de uma festa religiosa. É reconhecer um patrimônio vivo, onde a fé preserva a memória, a cultura resiste ao tempo e a história continua sendo escrita a cada toque dos tambores, a cada oração e a cada geração que escolhe manter viva uma das mais antigas tradições de Conselheiro Lafaiete.




