Em quase todo lugar do Brasil, o imposto sobre o imóvel é uma conta fixa da qual ninguém escapa. Em Sabará, a menos de 20 km de Belo Horizonte, uma árvore no quintal muda essa lógica. Desde uma lei de 1982, quem cultiva jabuticabeiras ganha abatimento no imposto, e essa ideia curiosa ajudou a transformar a fruta em símbolo econômico e turístico da cidade histórica.
Como funciona o desconto no IPTU para quem tem jabuticaba?
A regra é direta e vale há mais de quarenta anos. Pela Lei Municipal nº 146/1982, cada pé de jabuticaba plantado no terreno dá direito a 5% de desconto no Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana, o IPTU, com limite de cinco árvores, o que chega aos 25% de abatimento. Há um detalhe técnico, o benefício só conta para árvores com pelo menos cinco centímetros de diâmetro no tronco, ou seja, plantas já estabelecidas.
A regra é confirmada pela própria Prefeitura de Sabará, que orienta os proprietários a protocolar o requerimento antes de pagar o imposto. A estratégia deu tão certo que o cultivo virou tradição de quintal e ajudou a transformar a fruta em símbolo econômico da cidade, com dezenas de negócios voltados a geleias, licores, molhos e doces.
Sabará oferece ruas antigas, natureza e uma rotina típica do interior // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons
Por que a jabuticaba de Sabará tem selo nacional de origem?
A fruta de Sabará não é uma jabuticaba qualquer aos olhos da lei. Em outubro de 2018, os derivados da cidade receberam o registro de Indicação Geográfica na categoria Indicação de Procedência, concedido pelo Instituto Nacional da Proprietas Industrial (INPI). Cinco produtos entraram na certificação: licor, geleia, molho, compota e casca de jabuticaba cristalizada.
Na prática, o selo funciona como um sobrenome geográfico, restringindo o uso do nome “jabuticaba de Sabará” aos produtores da região, do mesmo jeito que acontece com a cachaça de Salinas ou o queijo da Canastra. É o reconhecimento oficial de uma tradição que sustenta o Festival da Jabuticaba, evento anual que enche as ruas da cidade na época da colheita, entre setembro e novembro.
Sabará se destaca pela arquitetura colonial e pelos quintais verdes // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons
O que faz de Sabará uma das cidades mais antigas de Minas?
Muito antes da fruta, foi o ouro que colocou Sabará no mapa. A cidade nasceu às margens do Rio das Velhas durante o Ciclo do Ouro e se tornou um dos principais centros de extração do século XVIII. Conforme o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a Vila do Sabará chegou a sediar uma das quatro primeiras comarcas da capitania, com território que ia até Goiás e Pernambuco.
Foi ali que Portugal instalou a Casa de Fundição, onde se cobrava o Quinto, os 20% de todo ouro encontrado que iam para a Coroa. Tanta riqueza rendeu à vila o título de “fidelíssima”, dado por Dom Pedro I, e deixou como herança um centro histórico com chafarizes, casarões e algumas das igrejas barrocas mais preciosas do país.
Sabará reúne jabuticabeiras, casarões e paisagens históricas de Minas // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons
Quais atrações históricas visitar em Sabará?
O centro antigo cabe num passeio a pé e concentra séculos de arte sacra e mineração. Vários monumentos estão a poucos minutos uns dos outros.
- Igreja de Nossa Senhora do Ó: construída entre 1717 e 1720 e tombada pelo IPHAN em 1938, é considerada joia da primeira fase do barroco, com talha dourada e raros motivos orientais.
- Igreja de Nossa Senhora do Carmo: interior quase todo entalhado com cerca de 400 kg de ouro, guarda obras atribuídas a Aleijadinho.
- Museu do Ouro: instalado na antiga Casa de Intendência, reúne peças de garimpo e ourivesaria, administrado por órgão federal.
- Rua Dom Pedro II: a antiga Rua Direita, conjunto arquitetônico tombado, abriga o solar colonial que hoje é sede da prefeitura.
- Matriz de Nossa Senhora da Conceição: inaugurada em 1710, uma das mais ricas do século XVIII, com três fases da arte barroca.
Vale a pena morar em Sabará perto de Belo Horizonte?
A proximidade da capital é um dos grandes atrativos de quem escolhe a cidade. A menos de 20 km do centro de Belo Horizonte, Sabará une a praticidade de viver ao lado de um grande centro urbano ao ritmo tranquilo de uma cidade histórica mineira. É o tipo de combinação que faz municípios do interior ganharem moradores, movimento parecido com o de outras cidades reconhecidas pela qualidade de vida.
O casario colonial preservado, as jabuticabeiras nos quintais e a gastronomia típica mineira compõem um cotidiano que poucas cidades metropolitanas conseguem oferecer. Aqui, o patrimônio de três séculos convive com a facilidade de chegar à capital em menos de meia hora.
Como é o clima de Sabará ao longo do ano?
O clima mineiro de altitude divide o ano entre um período seco e ameno e um verão mais chuvoso:
- Verão (Dezembro a fevereiro): 18°C a 30°C | Chuva alta. Os dias ficam quentes e chuvosos. Prefira igrejas, museus e atrações do centro histórico.
- Outono (Março a maio): 15°C a 27°C | Chuva média. As chuvas diminuem e o clima fica mais agradável. Aproveite para passear pelo casario histórico.
- Inverno (Junho a agosto): 13°C a 25°C | Chuva baixa. O tempo seco favorece os passeios a pé. É a melhor época para visitar o Museu do Ouro e fazer trilhas.
- Primavera (Setembro a novembro): 16°C a 29°C | Chuva média. A cidade ganha movimento com a safra da fruta mais famosa. Aproveite para acompanhar a colheita da jabuticaba.
Como chegar a Sabará?
O acesso é simples pela proximidade com a capital mineira. De Belo Horizonte são cerca de 20 km por rodovia, trajeto de menos de meia hora de carro. Quem vem de avião chega pelo Aeroporto Internacional de Confins e segue por estrada até o centro histórico.
Sabará é história e sabor no mesmo quintal. Poucas cidades transformam uma árvore frutífera em política pública e símbolo de identidade ao mesmo tempo. Entre igrejas barrocas cobertas de ouro e jabuticabeiras que rendem desconto no imposto, Sabará guarda um jeito raro de unir passado colonial e vida cotidiana. Vale reservar um dia para subir as ladeiras de pedra e provar a jabuticaba onde ela virou lei.
fonte: O Antagonista



