O que era para ser um refúgio de tranquilidade e memórias afetivas transformou-se em uma rotina de pavor, insônia e incertezas. É esse o cenário dramático revelado por um relatório técnico elaborado pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), por meio do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Apoio Comunitário, Inclusão e Mobilização Sociais (CIMOS). O documento retrata a dura realidade das famílias que residem nos bairros Cristo Rei e Residencial Gualter Monteiro, situados na Zona de Autossalvamento (ZAS) da imponente barragem de rejeitos de mineração Casa de Pedra (B6), de responsabilidade da CSN Mineração S.A. Ele será apresentado hoje (15) por volta das 18:00 horas na sede da Associação Comunitária Nossa Senhora Aparecida, no Bairro Residencial Gualter Monteiro.
Entre a Memória de Lazer e o Pesadelo Atual
Antes da imponência do maciço de rejeitos redefinir a paisagem local, a área hoje ocupada pela estrutura minerária era ponto de encontro e lazer para os moradores da região. Relatos colhidos pela pesquisa resgatam memórias de infância marcadas por banhos de lagoa, pescarias e piqueniques nos fins de semana em locais como a antiga represa da IMEC e a região de Sete Quedas.
Essa relação de harmonia ruiu com a instalação da barragem e foi profundamente traumatizada pelos rompimentos em Mariana (2015) e Brumadinho (2019). Desde então, o medo constante de um colapso estrutural passou a ditar o cotidiano das comunidades, intensificado pela proximidade física extrema com o barramento.
“A gente fica tenso o tempo todo, né? […] Qualquer momento você está preocupada, achando que a barragem vai despencar. […] Antes da barragem a gente não corria risco nenhum. Hoje a gente vive em constante medo.” — Relato nº 08

Saúde Mental Abalada e o Dilema das “Alternativas Infernais”
A pressão psicológica vivida pelos moradores tem cobrado um preço altíssimo. A privação crônica de sono — agravada em noites de chuva, temporais ou boatos de rompimento — tornou-se um problema de saúde pública generalizado nos bairros. O relatório aponta o uso recorrente e crescente de medicamentos controlados, como ansiolíticos e antidepressivos, para tentar amenizar o quadro de pânico e angústia.
Os moradores enfrentam o que a literatura sociológica classifica como “alternativas infernais”: o dilema sufocante entre tomar remédios para conseguir dormir e correr o risco de não despertar a tempo de uma eventual emergência, ou permanecer acordados em alerta perpétuo, sacrificando completamente a qualidade de vida.
Impactos Ambientais, Desvalorização Imobiliária e o Fechamento de Escolas
Além do risco iminente de desastre, a convivência com a mineração impõe perdas materiais e socioambientais diárias:
- Poeira e Poluição: A proximidade com a pilha de rejeitos secos e as estruturas de beneficiamento resulta em uma cortina constante de poeira preta que invade as residências, exigindo limpezas exaustivas e levantando alertas sobre riscos respiratórios.
- Desvalorização dos Imóveis: Casas que antes possuíam valor de mercado expressivo sofreram drástica desvalorização, caindo para frações do preço original. Com isso, as famílias ficam “presas” na zona de risco, sem conseguir vender ou alugar seus patrimônios para recomeçar a vida em locais seguros.
- Desativação de Creche e Escola: Logo após a tragédia de Brumadinho em 2019, a Prefeitura de Congonhas desativou a Creche Dom Luciano e a Escola Municipal Conceição Lima Guimarães por estarem na ZAS. A medida gerou revolta e contradição: os equipamentos públicos foram fechados por falta de segurança, mas as crianças e seus familiares continuam morando na mesma área de risco. A falta de transporte escolar adequado e o fechamento da creche obrigaram mães a abandonarem seus empregos para cuidar dos filhos em casa. Os prédios abandonados acabaram se tornando alvos de vandalismo e degradação urbana.
Relacionamento Frágil com a Empresa e Ineficácia do Alerta
A comunicação entre a CSN Mineração e a comunidade é duramente criticada. Os moradores classificam as informações oficiais como escassas, tardias, burocráticas e superficiais. Reuniões semestrais restritas a comitês fechados e uma Casa de Apoio com atuação considerada tímida não suprem a necessidade de um diálogo transparente e horizontal.
No tocante ao Plano de Ação de Emergência (PAEBM), o ceticismo reina. Dada a extrema proximidade dos bairros com o paredão da barragem, os moradores sustentam que o tempo de resposta em caso de rompimento seria inferior ao deslocamento necessário para os pontos de encontro, tornando o “autossalvamento” uma ilusão prática. Testes de sirene também foram apontados como falhos, gerando confusão com o barulho de trens e máquinas da própria operação minerária.
Conclusão e Perspectivas
Diante do esgotamento físico e mental, a principal reivindicação coletiva permanece inegociável: a realocação definitiva das famílias para uma área segura ou o pagamento de indenizações justas que permitam a recomposição de suas dignidades longe do perigo. Enquanto uma solução estruturante não é concretizada pelo poder público e pela mineradora, o relatório técnico do MPMG consolida um panorama alarmante de violações de direitos humanos e socioambientais na região de Congonhas.
- Foto capa: W Saints



