O primeiro patrimônio tombado do Brasil faz o queijo que a UNESCO consagrou em 2024
Em 1938, quando o IPHAN decidiu proteger pela primeira vez um conjunto arquitetônico no país, não escolheu Ouro Preto, nem Diamantina. Escolheu o Serro, antiga Vila do Príncipe, encravada a quase mil metros de altitude na Serra do Espinhaço, no centro-nordeste de Minas Gerais.
Como uma vila de bandeirantes virou patrimônio nacional
Os indígenas chamavam a região de Ivituruí, que em tupi-guarani significa algo como “vento do morro frio”. O nome faz sentido: um nevoeiro denso invade as partes altas da serra e traz frio constante, mesmo nos meses mais quentes.
Em 1702, bandeirantes liderados por Antônio Soares Ferreira encontraram ouro nas cabeceiras do rio Jequitinhonha. O arraial cresceu rápido e, em 1714, já era Vila do Príncipe, sede de uma das quatro primeiras comarcas da Capitania das Minas Gerais.
Quando o ouro e os diamantes se esgotaram, a cidade ficou isolada dos novos centros econômicos. Foi esse isolamento que preservou quase intacto o casario colonial dos séculos XVIII e XIX, garantindo o pioneiro tombamento federal em abril de 1938.

Como é morar em uma cidade que parou no tempo
O Serro tem ritmo de cidade pequena. As ladeiras de pedra ditam o passo, e o comércio do centro atende o dia a dia sem pressa. A Praça João Pinheiro, antigo Largo da Cavalhada, funciona como ponto de encontro entre sobrados coloniais e palmeiras imperiais.
A economia local gira em torno da agricultura familiar e da produção de queijo. Boa parte das famílias da zona rural segue fazendo queijo artesanal com técnicas transmitidas há gerações.
Em julho, a Festa de Nossa Senhora do Rosário toma as ruas com congado, danças de figurino colorido e procissões que misturam fé católica e tradições de matriz africana. É o momento em que a cidade inteira para.
O queijo que virou patrimônio três vezes
O Queijo do Serro acumulou três títulos. Em 2002, o IEPHA-MG o reconheceu como o primeiro bem cultural registrado como patrimônio imaterial no estado, um título que protege tradições vivas e modos de fazer.
Em 2008, veio o registro nacional pelo IPHAN. E em dezembro de 2024, a UNESCO consagrou os Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, a primeira vez que um alimento brasileiro recebeu esse título.
Feito com leite cru, coalho, pingo (fermento natural) e sal, o queijo passa por maturação mínima de 17 dias e ganha casca amarelada com sabor acentuado. Fazendas da região abrem as porteiras para visitantes que querem acompanhar o processo de perto.

O que visitar entre igrejas barrocas e cachoeiras?
O centro histórico se percorre a pé, mas os atrativos naturais pedem carro ou guia local. Os distritos de Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras ficam a 25 e 30 km da sede.
- Capela de Santa Rita: no ponto mais alto do centro histórico, com escadaria de onde se avista o Pico do Itambé (2.052 m). O Lonely Planet a descreve como o edifício mais marcante da cidade.
- Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição: uma das maiores igrejas barrocas do estado, com pinturas em perspectiva nos forros. Tombada pelo IPHAN.
- Museu Casa dos Ottoni: solar do século XVIII com acervo de mais de 500 peças entre móveis, utensílios e obras de arte.
- Milho Verde: distrito pacato com a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, vista para o Pico do Itambé e a Cachoeira do Moinho, com poços para banho cercados de mata.
- Vila Fantasma (Serra da Caroula): cerca de 100 casinhas que ficam vazias o ano inteiro e só ganham vida no Jubileu de Nossa Senhora das Dores, em julho. Do alto, a vista da serra compensa a subida de 3 km.
Quem busca por um destino histórico em Minas Gerais, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, que conta com mais de 1,3 milhão de visualizações, onde Matheus Boa Sorte apresenta um guia completo pelo Serro, mostrando desde a tradição do queijo artesanal até vilarejos icônicos como Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras:
Por que o Serro faz parte da Estrada Real?
Porque a cidade era parada obrigatória no Caminho dos Diamantes, o trecho da Estrada Real que ligava Diamantina ao Rio de Janeiro no período colonial. Segundo a Rough Guides, o Serro é um lugar menos para ver atrações e mais para desacelerar e sentir o ritmo da vida em uma cidade pequena de Minas.
O município fica a cerca de 90 km de Diamantina e faz parte do Circuito dos Diamantes, com roteiros de turismo rural que passam por fazendas de queijo e alambiques de cachaça.
Como é o clima no Serro?
A cidade fica acima de 700 m de altitude e tem clima ameno o ano inteiro, com temperaturas que geralmente variam entre 15°C e 29°C. O verão é chuvoso e pode dificultar o acesso a cachoeiras por estradas de terra. O inverno seco é a melhor época para trilhas e festas tradicionais.

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo e no Weather Spark. Condições podem variar conforme altitude e microclima da serra.
Como chegar à terra do queijo saindo de BH
De Belo Horizonte, são aproximadamente 4 horas de carro pela MG-010 ou pela BR-040/BR-259 via Curvelo. A Viação Serro opera linhas regulares de ônibus a partir da capital.
Dentro do município, carro facilita o deslocamento até os distritos e as cachoeiras. Boa parte do acesso é por estrada de terra, especialmente em direção a Milho Verde e ao Parque Estadual do Pico do Itambé.
A cidade que merece ser encontrada devagar
O Serro guarda dois títulos pioneiros no Brasil, o primeiro tombamento e o primeiro patrimônio imaterial, e agora carrega também o selo da UNESCO para seu queijo. As ladeiras, as igrejas com forro pintado e o modo de fazer queijo com a mesma técnica de três séculos formam um lugar que recompensa quem chega sem pressa.
Você precisa subir a escadaria de Santa Rita no fim da tarde, ver o Itambé ao fundo e entender por que essa cidade na Serra do Espinhaço é um dos segredos mais bem guardados de Minas.
FONTE: O ANTAGONISTA




