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Como é viver na menor cidade do Brasil: o pequeno vilarejo tem mais eleitores que habitantes e área maior que Belo Horizonte

Uma rua inteira com uma única casa, um supermercado de 60 anos que ainda anota o fiado em caderneta e um bolo de aniversário tão grande que chega de van. Serra da Saudade, no centro-oeste de Minas Gerais, é o município menos populoso do Brasil há 12 anos consecutivos e guarda contradições estatísticas que surpreendem até quem está acostumado a estudar o interior do país.

Por que Serra da Saudade é a menor cidade do Brasil? Pelo número de moradores. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município registrou 833 habitantes no Censo 2022 e chegou a 856 pessoas na estimativa populacional mais recente do instituto, em 2025. Para efeito de comparação, é menos gente do que cabe em um vagão lotado do metrô de São Paulo.

O posto de menos populoso do país é da cidade há 12 anos consecutivos. Antes disso, quem ocupava a posição era Borá, no interior de São Paulo, ultrapassada por Serra da Saudade em 2013. As duas seguem disputando os primeiros lugares da lista, junto com Anhanguera, em Goiás, que aparece no terceiro lugar do ranking nacional.

Uma curiosidade matemática chama atenção. A cidade tem 335,6 km² de área territorial, número maior que os 331,4 km² da capital mineira, Belo Horizonte. Ou seja, Serra da Saudade ocupa um pedaço de chão maior que o de uma cidade que abriga 2,4 milhões de pessoas, com densidade demográfica de apenas 2,48 habitantes por km².

A cidade onde há mais eleitores do que moradores O dado parece erro de digitação, mas não é. Em 2024, o levantamento do eleitorado apto a votar nas eleições municipais revelou que Serra da Saudade tinha 1.294 eleitores registrados, enquanto a população real era de 833 pessoas pelo Censo 2022. A diferença passa de 460 nomes, mais da metade da população atual da cidade.

O fenômeno é comum em municípios pequenos de Minas Gerais. Pessoas que se mudaram para outras cidades mantêm o título eleitoral original e voltam apenas para votar, o que acaba inflando o número de eleitores acima da população residente. A prática chama atenção do Tribunal Superior Eleitoral em todo período pré-eleitoral.

Na prática, isso significa que cada voto vale muito em Serra da Saudade. Nas eleições municipais de 2024, a prefeita reeleita conquistou 91,63% dos votos válidos, marca difícil de encontrar em qualquer outro município do país. A administração local descreve Serra da Saudade como uma cidade onde todos se conhecem pelo nome.

Como é a rotina da cidade que não tem farmácia nem posto de combustíveis? O comércio cabe nos dedos de uma mão. A cidade tem dois supermercados, sendo um deles em funcionamento há 60 anos e ainda usando o sistema de caderneta de fiado, uma padaria, uma loja de roupas, uma casa lotérica e sete bares que funcionam como ponto de convivência da comunidade. Não existe farmácia, não existe posto de combustíveis e não existem linhas regulares de ônibus.

Para abastecer o carro ou comprar remédios mais específicos, os moradores precisam dirigir até Estrela do Indaiá, a 15 km de distância. A prefeitura compensa parte da carência fornecendo medicamentos básicos diretamente no posto de saúde local, e o Wi-Fi público funciona em toda a área central, garantindo acesso à internet mesmo em uma cidade onde o sinal de celular não chega em todos os pontos.

A organização urbana é igualmente curiosa. Serra da Saudade tem apenas dois bairros, o Centro e o São Geraldo, distribuídos ao longo de cerca de 30 ruas. Na Rua Rio de Janeiro, dentro do São Geraldo, existe apenas uma casa, dado que ilustra a baixa densidade urbana da menor cidade do país.

O lugar mais seguro do Brasil tem 60 anos sem registrar homicídio O dado vem da própria Polícia Militar de Minas Gerais. Segundo declarações do tenente Fabrício Aparecido da Silva à imprensa nacional, o último homicídio em Serra da Saudade ocorreu há cerca de 60 anos. Em 2024, foram registrados apenas dois furtos no município inteiro, e em 2025 a única ocorrência relevante foi o furto de um celular durante uma festa, posteriormente recuperado pelos próprios policiais.

A explicação está na rede social analógica que funciona melhor que qualquer câmera de segurança. Quando um carro estranho entra na cidade, os próprios moradores avisam a polícia, que faz uma abordagem cordial para identificar quem é o visitante. O sistema funciona porque todos se conhecem pessoalmente, inclusive a prefeita, que afirma reconhecer cada morador da cidade.

Apenas quatro policiais militares são responsáveis pela segurança do município inteiro, número desproporcional para os 335 km² de território, mas suficiente para a realidade local. A cidade aparece com frequência em rankings informais como uma das mais seguras do Brasil, embora não exista uma lista oficial em órgão federal que classifique municípios pequenos por nível de criminalidade.

A lenda indígena que deu origem ao nome da cidade O nome carrega uma história que mistura tradição oral e história colonial mineira. Segundo a lenda preservada pelos moradores, no século XVIII, uma tribo indígena habitava a região onde hoje fica o município. Por motivos desconhecidos, a tribo foi dizimada, restando apenas uma indígena solitária que esperava notícias por carta dos parentes ausentes.

Quando a correspondência finalmente chegou, a indígena já havia falecido, e os moradores conseguiram ler apenas uma palavra ainda legível no papel: saudade. A partir daí, a serra que circundava o local ganhou o nome atual, conforme registros oficiais divulgados pela prefeitura municipal.

A história documentada é mais prosaica. A região era ocupada por duas grandes fazendas, a Fazenda do Rancho e a Fazenda Serra da Saudade, e ganhou impulso com a chegada da Estrada de Ferro Belo Horizonte–Paracatu, em 1925. A emancipação política veio em 1962, quando o município se separou de Dores do Indaiá, e o aniversário oficial da cidade é comemorado em 1º de março.

Conheça a cidade que mostra como o Brasil ainda cabe em um abraço Serra da Saudade é o caso raro de município brasileiro onde a estatística vira folclore. A área é maior que a de uma capital, os eleitores superam os moradores, o homicídio é assunto de outro século e o supermercado mais antigo ainda anota a conta no caderno. Tudo isso a cerca de 250 km de Belo Horizonte.

Você precisa conhecer Serra da Saudade para entender como o Brasil ainda cabe inteiro em uma praça onde todo mundo se chama pelo primeiro nome.

Fonte: O Antagonista

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