No nordeste de Goiás, o Cerrado sobe a mais de mil metros de altitude e se transforma em cânions, campos rupestres e quedas d’água que despencam de paredões com mais de 1 bilhão de anos. A Chapada dos Veadeiros é o lugar onde a geologia deixou rastros visíveis no chão — cristais de quartzo afloram entre as pedras das trilhas — e onde o rio esculpiu vales que parecem ter saído de outro planeta.
Por que a Chapada dos Veadeiros tem cristais de quartzo no chão?
O solo da Chapada repousa sobre uma das maiores concentrações de cristais de quartzo do mundo. As rochas da região são formações quartzíticas com mais de 1 bilhão de anos, entre as mais antigas do planeta, moldadas por processos geológicos que existiam antes de qualquer forma de vida complexa. Esse quartzo foi o que atraiu os primeiros desbravadores da região: a partir dos anos 1950, centenas de garimpeiros chegaram ao nordeste de Goiás em busca do mineral, exportado para o Japão e a Inglaterra para uso em equipamentos de radiocomunicação. A Vila de São Jorge, hoje porta de entrada do parque, nasceu desse garimpo em 1951 e se chamava Baixa dos Veadeiros.
A chapada também é cortada pelo Paralelo 14 Sul, a mesma linha imaginária que passa por Machu Picchu, no Peru. Esse dado alimenta o turismo místico que chegou à região a partir da década de 1970, quando grupos espirituais e filosóficos começaram a se instalar em Alto Paraíso de Goiás, atraídos pela energia que atribuíam aos cristais. Hoje, mais de 40 grupos filosóficos e religiosos têm presença registrada na região, conforme dados amplamente divulgados pela Prefeitura de Alto Paraíso de Goiás.
Que reconhecimentos internacionais a Chapada dos Veadeiros recebeu?
Em 2001, a UNESCO declarou o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros Patrimônio Natural da Humanidade, reconhecendo a riqueza do Cerrado de altitude, a biodiversidade endêmica e a presença de formações geológicas com mais de 1 bilhão de anos. O parque é gerido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e protege cerca de 240 mil hectares de Cerrado, área ampliada em 2017 por decreto federal no Dia Mundial do Meio Ambiente.
O parque foi criado originalmente em 1961 por decreto do presidente Juscelino Kubitschek, com 625 mil hectares. Ao longo das décadas seguintes, sofreu reduções drásticas, chegando a menos de 70 mil hectares. A ampliação de 2017 devolveu parte significativa da área protegida e fortaleceu o status internacional do parque. O Cerrado, bioma em que o parque está inserido, é considerado a savana com maior biodiversidade do planeta, com mais de 6 mil espécies de árvores e 800 de aves catalogadas, segundo dados do ICMBio.
O que fazer dentro e ao redor do parque?
A Chapada dos Veadeiros tem três bases principais: Alto Paraíso de Goiás (a maior, a 230 km de Brasília), Vila de São Jorge (porta de entrada do parque, a 36 km de Alto Paraíso por estrada de terra) e Cavalcante (a 90 km de Alto Paraíso, acesso ao território Kalunga). Estas são as principais atrações e experiências na região:
- Trilha dos Saltos do Rio Preto: a trilha mais icônica do parque, com 9 km de ida e volta. Leva a dois saltos do Rio Preto: o Salto de 120 metros, cartão-postal da Chapada e ponto de vista de tirar o fôlego, e o Salto de 80 metros, com grande piscina natural para banho. A trilha parte da Vila de São Jorge e exige ingresso online pelo sistema da Parquetur.
- Vale da Lua: formações rochosas esculpidas pela erosão milenar do Rio São Miguel, que moldurou a rocha em formas que lembram a superfície lunar. As piscinas naturais formadas nas concavidades das pedras produzem pressão de água semelhante à das banheiras de hidromassagem. Trilha curta de 600 metros, ideal para todas as idades. Entrada paga, próximo à Vila de São Jorge.
- Cachoeira Santa Bárbara: queda de 30 metros com águas em tom turquesa intenso, localizada em Cavalcante, dentro do Território Quilombola Kalunga. Acesso somente com guia local obrigatório e limitado a 300 visitantes por dia. Uma das mais fotografadas do Brasil.
- Cachoeiras Almécegas I e II: imponentes quedas próximas a Alto Paraíso, com águas esverdeadas e infraestrutura de apoio para refeições. Atrações em propriedade particular, com taxa de preservação.
- Jardim de Maytrea: campo de Cerrado às margens da GO-118, entre Alto Paraíso e São Jorge, emoldurado pelo Morro da Baleia e pela Serra de Santana. Paisagem de fotografia panorâmica, ponto de parada obrigatória no trajeto entre as vilas.
- Comunidade Kalunga: território de cerca de 262 mil hectares entre Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás, com aproximadamente 9 mil pessoas distribuídas em 39 comunidades. Os Kalunga são descendentes de escravos que fugiram e se refugiaram nas áreas de difícil acesso do Cerrado no século XVIII. O turismo no território é regulado pela própria comunidade, com guias locais e estrutura de recepção comunitária.
- Mirante da Janela: ponto panorâmico com vista privilegiada para os saltos do Rio Preto, dentro do parque. Uma das imagens mais reproduzidas da Chapada.
- Tirolesa e balonismo: atividades de aventura operadas por agências locais. A tirolesa oferece vista de 360° da chapada e é a segunda maior de Goiás.
Qual a melhor época para visitar e o que fazer em cada estação?
A Chapada tem duas estações bem definidas: a chuvosa, de outubro a março, e a seca, de abril a setembro. Cada período oferece uma experiência diferente, conforme o Climatempo. No inverno seco, as temperaturas variam entre 12°C e 25°C; no verão chuvoso, podem superar 30°C.
- Seca (Abril a Setembro): Período ideal para trilhas e banhos de cachoeira. As águas estão mais cristalinas e o risco de trombas d’água é quase nulo. É a época mais procurada por turistas. Atenção: em agosto e setembro o risco de incêndios no Cerrado aumenta, o que pode gerar restrições de acesso a trilhas.
- Chuvosa (Outubro a Março): As cachoeiras ficam com volume máximo de água, criando espetáculos visuais potentes. No entanto, algumas trilhas podem ser interditadas devido ao risco de “cabeça d’água”. A vegetação do Cerrado fica intensamente verde e florida.
Como chegar saindo de Belo Horizonte ou Brasília?
O aeroporto mais próximo é o Aeroporto Internacional de Brasília (BSB), a 230 km de Alto Paraíso de Goiás. De Brasília, o acesso é pela BR-020 até Formosa (GO) e depois pela GO-118, estrada asfaltada e panorâmica que leva diretamente a Alto Paraíso em cerca de 3 horas de carro. De Alto Paraíso até a Vila de São Jorge são mais 36 km por estrada de terra. Para Cavalcante, são 90 km de Alto Paraíso, com trechos de estrada menos asfaltada.
De Belo Horizonte, a distância é de aproximadamente 760 km e o trajeto leva cerca de 10 horas de carro, passando por Brasília. Carro próprio ou alugado é a melhor opção para a região, já que as atrações ficam espalhadas por um raio grande e o transporte público entre as vilas é limitado. Não há postos de gasolina em São Jorge: abasteça em Alto Paraíso ou em São João d’Aliança, considerada o Portal da Chapada, antes de entrar na GO-118.
O Cerrado mais antigo do mundo espera quem tiver disposição para a estrada
A Chapada dos Veadeiros entrega o que poucos destinos brasileiros conseguem reunir: geologia de escala planetária com mais de 1 bilhão de anos, cachoeiras que despencam 120 metros, piscinas naturais esculpidas pelo Rio Preto, comunidades quilombolas centenárias e o título de Patrimônio Natural da Humanidade da UNESCO. Você precisa calçar a bota, descer o cânion do Rio Preto na Trilha dos Saltos e sentir na pele por que a UNESCO escolheu esse pedaço de Goiás como patrimônio de toda a humanidade.
Fonte: Estado de Minas





