A marca que foi sinônimo de celular no mundo inteiro por duas décadas encerrou a produção de smartphones, sobrevive apenas em celulares básicos na Índia e ainda não encontrou ninguém disposto a carregar seu nome em um aparelho moderno.
Quatro em cada dez celulares vendidos no mundo eram Nokia. O Nokia 1100, lançado em 2003, vendeu 250 milhões de unidades, mais do que qualquer iPhone ou Galaxy já produziu. O Nokia 3310, o famoso tijolão, colocou 126 milhões de aparelhos nas mãos de pessoas em todos os continentes. Em 1998, a empresa finlandesa era a maior fabricante de celulares do mundo, com receita de US$ 20 bilhões por ano e controle de 40% do mercado global.
Hoje a Nokia busca alguém disposto a colocar seu nome em um smartphone. Até agora, ninguém apareceu.
De fábrica de papel a dona do mundo
Poucos sabem, mas a Nokia não nasceu fazendo celular. A empresa foi fundada em 1865 pelo engenheiro Fredrik Idestam às margens do rio Nokianvirta, no sul da Finlândia. O negócio original era fabricação de papel. A cidade onde a segunda fábrica foi construída chamava Nokia, e foi daí que veio o nome da empresa.
Ao longo dos séculos seguintes, a companhia passou por borracha, botas, cabos elétricos e televisores. O negócio de telecomunicações só ganhou força em 1979, e o primeiro celular de verdade chegou em 1992, com o lançamento do Nokia 1011, o primeiro aparelho GSM da história.
O crescimento foi explosivo. Em menos de uma década, a Nokia dominou o planeta. Seus celulares eram duráveis, baratos, vinham com o jogo da cobrinha e tinham bateria que durava dias. Em 2000, quatro em cada dez celulares vendidos no mundo eram Nokia. A empresa finlandesa havia saído de uma fábrica de papel ribeirinha para liderar a maior revolução de comunicação da história humana.
O iPhone e a queda que ninguém esperava
A queda começou em 2007, quando a Apple lançou o iPhone. A Nokia tinha tecnologia, tinha escala, tinha engenheiros brilhantes e dinheiro no caixa, mas não soube reagir. Enquanto o mercado migrava para telas touchscreen e aplicativos, a empresa continuou apostando em teclados físicos e sistemas operacionais que já estavam ficando para trás.
A situação foi piorando a cada ano. Em 2013, com as perdas acumulando e a ação despencando, a Microsoft comprou a divisão de celulares da Nokia por US$ 7,2 bilhões. A gigante americana acreditava que podia reviver a marca com o sistema Windows Phone. Dois anos depois, havia destruído o que comprou. A Microsoft cancelou os projetos, demitiu milhares de funcionários e engavetou praticamente tudo.
O que derrubou a Nokia não foi só o iPhone. Foi a incapacidade de mudar quando o mundo mudou. A empresa teve anos para reagir e mesmo assim perdeu.
A última tentativa com a HMD Global
Em 2016, um grupo de ex-executivos da Nokia criou a HMD Global e assinou um contrato de licenciamento da marca por dez anos. A ideia era relançar o nome Nokia em celulares Android, aproveitando a nostalgia de quem havia crescido com os tijolões.
No começo funcionou. O relançamento do Nokia 3310 em 2017 gerou comoção mundial. Novos modelos foram lançados a preços acessíveis, com proposta de Android limpo e sem excesso de aplicativos instalados. Por um tempo, pareceu que a Nokia tinha encontrado seu espaço.
Mas o mercado não esperou. A HMD Global nunca conseguiu escala real para competir com Samsung, Xiaomi e as marcas chinesas de baixo custo que inundaram o mundo. Em 2024, a empresa começou a lançar aparelhos com sua própria marca, abandonando gradualmente o nome Nokia nos smartphones. A separação foi acontecendo em silêncio, mercado por mercado.
A saída do Brasil, dos Estados Unidos e o fim dos smartphones
A HMD deixou o Brasil antes mesmo de anunciar qualquer encerramento formal. Em 2025, a empresa anunciou a saída dos Estados Unidos, citando tarifas de importação e um ambiente geopolítico desfavorável. Os aparelhos da marca Nokia foram retirados dos canais oficiais, a loja virtual foi tirada do ar e os estoques restantes ficaram apenas com revendedores terceirizados.
Nesse mesmo período, a produção de smartphones Nokia foi encerrada definitivamente. Não houve coletiva de imprensa, não teve despedida oficial. A saída foi silenciosa. Os aparelhos simplesmente pararam de aparecer.
O acordo de licenciamento entre Nokia e HMD Global para smartphones venceu em março de 2026. Para os celulares básicos, os famosos feature phones sem internet e sem câmera, as duas empresas firmaram uma renovação por mais dois a três anos. É nesses aparelhos simples, vendidos principalmente na Índia, que o nome Nokia ainda sobrevive. A HMD detém 22,4% do mercado de feature phones no país, o que é muito para um segmento pequeno e pouco para quem já dominou o mundo.
A busca por um novo parceiro
Em julho de 2025, a Nokia admitiu publicamente que está buscando um novo parceiro para licenciar a marca em smartphones. A declaração saiu em uma postagem em canal oficial da empresa, confirmada depois por portais como PhoneArena e Android Authority. A Nokia quer alguém com escala industrial e distribuição global, não uma startup ou um experimento de mercado.
Até hoje, nenhum parceiro foi anunciado.
A Nokia Corporation, empresa-mãe finlandesa, hoje atua principalmente em infraestrutura de redes 5G e telecomunicações para empresas e governos. É uma companhia completamente diferente da que vendia celulares. O negócio de aparelhos foi uma fase da história, e essa fase acabou.
O que fica de tudo isso
A Nokia foi, por anos, a prova de que uma empresa pequena de um país frio podia dominar o mundo inteiro. Que durabilidade e simplicidade bastavam para conquistar bilhões de pessoas. Que não precisava de câmera de duzentos megapixels nem de tela dobrável para vender 250 milhões de unidades de um único modelo.
O nome ainda existe. A história, essa já foi escrita.
Fonte: Click Petróleo e Gás



