Processo de tombamento isolado será votado pelo Iphan neste mês; imóvel tem mais de 250 anos de história e passou por restauração recente
Fachada da Casa da Ópera – Teatro Municipal de Ouro Preto, que será reaberto após passar por restauração
O mais antigo teatro em funcionamento das Américas, a Casa da Ópera – Teatro Municipal de Ouro Preto pode em breve receber o título de Patrimônio Cultural Brasileiro. Ocorre que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) incluiu na pauta da 113ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, marcada para os dias 9 e 10 de junho, próximas terça e quarta, a votação da proposta de tombamento isolado do imóvel. Se aprovada, a edificação será inscrita nos Livros do Tombo Histórico e de Belas Artes.
Inaugurada em junho de 1770, ainda no período colonial, a então chamada Casa da Ópera de Vila Rica foi construída por ordem do governador das Capitanias de Minas Gerais, o Conde de Valadares, em homenagem ao rei de Portugal, Dom José I.
O teatro foi palco de uma opereta escrita pelo inconfidente Cláudio Manuel da Costa, maior poeta do arcadismo brasileiro, e um dos primeiros espaços nas Américas a permitir a presença de mulheres nos palcos – à época, era comum que homens se travestissem para interpretar papéis femininos. Além disso, a edificação recebeu, ao longo dos séculos, personalidades como o imperador Dom Pedro II, o poeta Alvarenga Peixoto e Juscelino Kubitschek, que organizou ali um festival de arte em 1955, ano em que foi eleito presidente.
O imóvel já integra o Conjunto Arquitetônico e Urbanístico de Ouro Preto, tombado pelo Iphan desde 1938. No entanto, conforme justifica o instituto em nota oficial, o teatro possui “grande relevância histórica e cultural”, com “valores históricos, arquitetônicos, artísticos e simbólicos próprios, que vão além da proteção já garantida ao conjunto urbano”.
Com quase 255 anos de atividade ininterrupta, o teatro aguarda agora a decisão do Conselho Consultivo do Iphan. A sessão do dia 9 de junho será transmitida ao vivo pelo canal do instituto no YouTube. Além da Casa da Ópera, a reunião também analisará o tombamento do Palacete Linneo de Paula Machado, no Rio de Janeiro, e os registros do Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado e dos Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte (CE), entre outros bens.
Restauração recente devolveu características originais ao espaço
Em dezembro de 2023, o teatro foi reaberto ao público após uma restauração que durou pouco mais de um ano e custou cerca de R$ 750 mil, financiada pelo Fundo Municipal de Patrimônio e pela Prefeitura de Ouro Preto. A reforma incluiu revitalização das estruturas de alvenaria, substituição completa do telhado, pintura externa e interna, revisão elétrica, descupinização e melhorias no sistema de combate a incêndios.
Um dos maiores desafios, segundo o gerente de cultura do município, Wanderson Gomes, foi preservar a essência histórica do bem. “Os desafios de uma restauração dessa natureza, desde a concepção do projeto, passando pela aprovação e culminando na execução, é que ela demanda um cuidado muito grande para não se executar ações que prejudiquem o bem e sua história”, afirmou à reportagem de O TEMPO à época.
A troca do telhado, por exemplo, exigiu a substituição de duas vigas de madeira de 10 metros cada, chamadas de “espigões”. Para não descaracterizar o prédio, o material precisou ser encomendado do Pará, o que atrasou a conclusão das obras. “Não poderíamos simplesmente recorrer, por exemplo, a uma substituição desse material por estruturas metálicas, que descaracterizariam o prédio”, explicou o diretor da Casa da Ópera, artista visual Roberto Sussuca.
Também foi restaurada a pintura artística da boca de cena, obra original do pintor Marcelino José de Mesquita, e recuperadas as cortinas, bambolinas e o sistema de movimentação cênica.
Uma das figuras mais entusiasmadas com o processo de restauro ouvido pela reportagem é também o personagem que mais tempo permaneceu no interior do teatro lugar: o músico e técnico de iluminação Vicente Gomes. Então com 70 anos, ele já era o funcionário mais antigo da casa. “Trabalho aqui há 43 anos e, para ser bem sincero, não saberia te dizer se passei mais tempo da minha vida aqui ou na minha própria casa”, contou.
Fonte: Jornal O Tempo



