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Brasil aboliu a escravidão há mais de um século, mas suas prisões ainda carregam uma antiga lógica de punição, abandono e exclusão racial

Sistema prisional brasileiro reproduz violações históricas, racismo institucional e mecanismos de repressão criados durante os períodos colonial, imperial e republicano.

O sistema prisional brasileiro representa um dos sinais mais evidentes da falência institucional do país. A privação de liberdade, na prática, tornou-se uma pena acompanhada por sofrimento, abandono e violações de direitos fundamentais.

Em outubro de 2023, o Supremo Tribunal Federal reconheceu um “estado de coisas inconstitucional” nas prisões brasileiras. A decisão ocorreu durante o julgamento da ADPF 347 e confirmou a existência de problemas estruturais em todo o sistema.

Entre as principais violações estão:

  • Superlotação das unidades prisionais;
  • Tortura e tratamento degradante;
  • Condições insalubres;
  • Infraestrutura precária;
  • Assistência médica insuficiente;
  • Ausência de condições mínimas de sobrevivência.

História ajuda a explicar o colapso das prisões

A compreensão do cárcere atual exige uma análise da formação social e política brasileira. Nesse contexto, o sistema prisional surgiu dentro de uma estrutura construída durante séculos de escravidão.

Até o século XVIII, as punições atingiam diretamente o corpo das pessoas condenadas. Castigos físicos, sofrimento público e suplícios funcionavam como instrumentos de intimidação, disciplina e controle social.

Durante o século XIX, a chamada prisão moderna começou a substituir gradualmente esse modelo. A nova proposta prometia abandonar a violência corporal e transformar moralmente o indivíduo condenado.

Sob influência do Iluminismo, a pena passou a ser apresentada como um instrumento de regeneração. O isolamento social, a prática religiosa e o trabalho manual seriam usados para produzir disciplina e arrependimento. A expectativa previa o abandono da criminalidade e a adoção de comportamentos considerados produtivos.

Na prática, porém, esse projeto de ressocialização nunca foi plenamente concretizado.

Abolição não encerrou os mecanismos de repressão

A evolução das penas no Brasil recebeu influência direta da escravidão. Durante o Império e os primeiros anos da República, o Estado assumiu parte do controle antes exercido pelos senhores de escravizados.

A Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, extinguiu oficialmente a escravidão no país. A população recém-liberta, entretanto, permaneceu afastada das oportunidades de trabalho formal e inclusão social.

Em 11 de outubro de 1890, o Código Penal da República passou a criminalizar práticas associadas à cultura africana. A capoeira esteve entre as manifestações perseguidas pelo poder público.

Dessa maneira, milhares de pessoas negras continuaram como alvos preferenciais da repressão estatal. A mudança política, portanto, não eliminou as antigas estruturas de controle e exclusão racial.

Novo sistema penal nasceu com velhos problemas

A seletividade permanece presente em toda a cadeia da Justiça criminal brasileira. Esse processo aparece na elaboração das leis, na abordagem policial, no processo penal e na execução das penas.

Homens e mulheres negros continuam associados à criminalidade, à ociosidade e à marginalidade. Esses estigmas foram construídos historicamente e nunca receberam uma resposta efetiva do Estado.

Como consequência, a população negra permanece entre os principais alvos da repressão penal. O legado escravocrata ainda influencia quem será investigado, preso, punido e excluído.

Herança ultrapassa os muros das prisões

A lógica de criminalização também alcança o cotidiano das periferias brasileiras. Nesse cenário, a violência policial, a morte de jovens e as violações de direitos humanos reforçam um ciclo de exclusão social.

O enfrentamento dessa realidade exige mudanças profundas no sistema de Justiça criminal. A redução do superencarceramento, o combate ao racismo institucional e a proteção das garantias fundamentais precisam ocupar o centro do debate.

Somente a ruptura com a herança colonial e escravocrata permitirá construir um sistema orientado pela inclusão, dignidade e justiça. O país precisa deixar de administrar o sofrimento e o abandono de populações historicamente marginalizadas.

fonte: CPG (Click Petróleo e Gás)

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