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Brasileiro trabalha pouco? O que é produtividade e por que ela se tornou central no debate sobre escala 6×1

Economistas e empresários têm citado a baixa produtividade da economia brasileira como um dos argumentos contrários ao fim da escala 6×1. Entenda a polêmica.

Quando economistas e empresários falam sobre o possível fim da escala 6×1 — aquela em que o funcionário trabalha seis dias na semana e tem apenas um dia de descanso — uma palavra surge com frequência: produtividade.

“A gente tem que ser verdadeiro: aumenta o custo, sim; gera desemprego por causa desse aumento; o país perde produtividade”, afirmou Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em entrevista à GloboNews em 11 de março.

“Nenhuma nação foi capaz de enriquecer e pagar melhor sem antes promover ganhos de produtividade relevantes. A discussão que deveríamos estar pautando como obsessão nacional é como ganhar produtividade para pagar mais, melhor, e trabalhar menos”, disse Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), em entrevista à BBC News Brasil em fevereiro.

Mas o que é a produtividade? Por que ela se tornou central no debate sobre o fim da escala 6×1? E por que alguns economistas criticam esta centralidade, argumentando que limitar o debate sobre o fim da escala 6×1 a isso pode ser insuficiente? Entenda em 5 pontos e confira a posição do Brasil no ranking de produtividade mundial.

1. O que é produtividade e como é calculada Produtividade do trabalho é a quantidade de bens e serviços que um trabalhador gera, em média, na economia com o seu trabalho, define Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

“Se você pensar num Starbucks: quantos clientes o trabalhador consegue atender em um dia? Essa é a produtividade dele”, exemplifica Naercio Menezes Filho, professor do Insper. “Se pensar numa indústria automobilística: quantas partes do carro ele consegue botar num automóvel por dia? É um conceito bem intuitivo.”

Como é difícil ter acesso aos dados de cada empresa, em economia, a produtividade é medida usando o Produto Interno Bruto (PIB), valor gerado por todas as atividades econômicas do país. O PIB é dividido por trabalhador ou horas trabalhadas — esta forma é usada, por exemplo, pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) para comparar a produtividade entre países. A produtividade do trabalho é, por fim, o resultado da produtividade por hora de trabalho, multiplicada pelo total de horas trabalhadas.

2. Qual a posição do Brasil no ranking da produtividade Segundo dados da OIT para 175 países, o Brasil ocupa apenas a 86ª posição entre as nações mais produtivas do mundo, considerando a produtividade por hora trabalhada, logo à frente da China (87ª). O país, no entanto, fica atrás de grandes economias como Estados Unidos (12º), Alemanha (13º) e Reino Unido (22º), mas também de pares latino-americanos, como Chile (53º), Argentina (55º), México (81º) e até mesmo de Cuba (82º). No topo da lista, estão Irlanda, Luxemburgo e Noruega.

Fernando de Holanda, da FGV, avalia que diversos fatores contribuem para a posição desfavorável do Brasil na comparação internacional, como a baixa qualificação da mão de obra e infraestrutura precária. Também pesam um ambiente de negócios ruim (com elevada burocracia e tributação complexa, por exemplo) e falhas de mercado que pioram o funcionamento da economia — como incentivos mal desenhados e para setores específicos da atividade, desigualdade no acesso a crédito, entre outras. Esses fatores reduzem a eficiência das empresas e levam a uma má alocação de recursos na economia, prejudicando a produtividade do país.

Menezes Filho, do Insper, cita ainda o reduzido nível de investimento do Brasil — influenciado pelos juros altos e baixa taxa de poupança — como outro fator que também afeta a produtividade, já que o estoque de capital (como máquinas, equipamentos, edifícios e infraestrutura) e a adoção de novas tecnologias também influenciam no quão produtivos são os trabalhadores.

Outros economistas têm apontado, porém, que a própria forma como a produtividade é mensurada, usando como base o valor adicionado da economia, dividido pelas horas trabalhadas, contribui para a baixa posição do Brasil no ranking. Isso porque a economia do país é baseada em grande medida na produção agrícola e mineral, e em serviços de baixa complexidade, o que resulta em um valor adicionado menor e, consequentemente, em uma produtividade mais baixa que a de países cuja economia é baseada em uma indústria de alta intensidade tecnológica e serviços mais sofisticados, de maior valor agregado. Isso não significa que os brasileiros trabalhem menos horas ou se esforcem menos do que os trabalhadores de economias avançadas, observam esses economistas.

No ranking da OIT de média de horas trabalhadas por semana para 167 países, o Brasil ocupa a 93ª posição com uma média de 38,9 horas trabalhadas semanais. Apesar da baixa posição também neste ranking, o país fica à frente de economias avançadas como EUA (37,5 horas), França (35,5 horas) e Alemanha (33,3 horas) e de vizinhos como Uruguai (36,8 horas) e Argentina (36,5 horas).

No topo deste ranking, com o maior número de horas trabalhadas semanais, estão Butão (54,4 horas), Emirados Árabes Unidos (50,8 horas) e Sudão (50,8 horas). Em um estudo recente, o economista Daniel Duque, também pesquisador do Ibre FGV, utilizou uma base de dados disponibilizada pelos economistas Amory Gethin e Emmanuel Saez para analisar quanto os brasileiros trabalham em relação ao que seria esperado, dado o nível de desenvolvimento e o perfil demográfico do país. Utilizando uma base de 146 países, ele encontrou que os brasileiros trabalham em média 1,2 hora por semana a menos do que o padrão sugerido pelo modelo.

“Não se pode dizer que o brasileiro trabalha pouco, porque não existe um nível certo de se trabalhar”, observa Duque. “Não significa que temos que trabalhar mais para sermos desenvolvidos, é uma questão de preferência [da sociedade]. O que o dado mostra é que o brasileiro talvez tenha uma preferência por ser uma país mais perto da Europa, do que de outros países desenvolvidos.”

3. Por que a produtividade importa “A produtividade é fundamental quando falamos de bem-estar”, afirma Fernando Holanda, do FGV Ibre. “Não há nenhum país na história com elevada oferta de bens e serviços para sua população em que a produtividade seja muito baixa”, observa.

Menezes Filho acrescenta que a produtividade influencia diretamente no PIB per capita (por pessoa), a mais importante medida de bem-estar dos países. “Quando o PIB per capita aumenta, tem mais riqueza para distribuir para cada pessoa, mantida a desigualdade constante”, afirma. “E o PIB per capita depende da produtividade — o PIB por trabalhador — e do número de trabalhadores em relação ao total de pessoas do país.”

O professor do Insper observa que, até recentemente, o Brasil aumentou muito o número de pessoas trabalhando, porque o país tinha uma população jovem. “Agora, já estamos em um país que está envelhecendo, então a demografia não está mais a nosso favor e não será mais possível aumentar o PIB per capita só aumentando o número de trabalhadores na população. Então, é preciso aumentar a produtividade de cada um desses trabalhadores.”

4. Por que produtividade se tornou central no debate sobre o fim da escala 6×1? Fernando de Holanda é um dos economistas que têm trazido o tema da produtividade para o debate sobre o fim da escala 6×1. Em um estudo publicado em maio de 2025, ele buscou avaliar o impacto sobre a produtividade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), que propõe a redução da jornada máxima de trabalho no país, de 44 horas, para 36 horas semanais.

Considerando a jornada média de trabalho do país, que era de 38,4 horas semanais em 2024, ele observa que a introdução de uma jornada máxima de 36 horas reduziria a jornada de trabalho em 6,2%. Isso reduziria de forma proporcional o total de horas trabalhadas e, com isso, encolheria também o PIB em 6,2%. Holanda destaca que uma queda na jornada de trabalho máxima de 44 horas para 40 horas ou 36 horas reduziria as horas trabalhadas em 9% e 18%, respectivamente. Sem uma redução equivalente de salários, as opções elevariam o salário-hora em 10% e 22%, respectivamente, representando um aumento de custos para as empresas.

“Essa elevação de salários depende de ganhos de produtividade para ser sustentável”, argumenta Holanda. Ele observa que, entre 1981 e 2024, a produtividade por hora trabalhada cresceu apenas 0,6% ao ano no Brasil. “Sem ganhos de produtividade, a elevação do salário-hora pode ter impacto negativo sobre a informalidade”, observa o economista.

5. Por que debate deve ir além da produtividade, segundo alguns economistas Outros economistas têm criticado a centralidade da produtividade no debate sobre o fim da escala 6×1. Eles também avaliam que a mudança na jornada de trabalho pode ter o efeito contrário àquele estimado em alguns estudos, elevando a produtividade dos trabalhadores. “Quando se reduz a jornada, isso pode aumentar a produtividade do trabalhador”, defende Naercio Menezes Filho. “Porque ele tem que trabalhar menos horas, vai ficar menos estressado, a qualidade de vida dele vai melhorar.”

Esse aumento de custo foi estimado, em um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 7,84% em média, no caso de uma jornada de 40 horas semanais. “Quando se fala de aumento do salário-mínimo, também vem toda essa questão da produtividade”, observa Joana Simões, uma das autoras do estudo do Ipea. “E conseguimos observar na economia, nesse passado recente, que esses aumentos do salário-mínimo não vieram acompanhados de todas aquelas previsões catastróficas. Foram aumentos que foram absorvidos pelo mercado de trabalho.”

Simões enumera que as empresas devem repensar sua organização interna, reduzir desperdícios e implantar mudanças tecnológicas, o que contribuirá para aumentar a produtividade. Menezes Filho cita também o “poder de monopsônio”, onde trabalhadores brasileiros levam para casa apenas 50 centavos de cada dólar que geram de valor. “Aumentando o salário-hora, chega-se mais próximo da produtividade real desse trabalhador”, argumenta.

Menezes Filho destaca ainda que a redução de jornada pode aumentar o tempo de convivência dos trabalhadores com seus filhos, com potenciais impactos no desenvolvimento cognitivo, o que pode aumentar a produtividade futura do país. Daniel Duque, por sua vez, avalia que o fim da escala 6×1 deve aumentar a produtividade por hora, mas reduzir a produtividade total. Ele cita como outros caminhos para a produtividade a abertura comercial, avanços na educação e mudanças na composição tributária.

Fonte: BBC News Brasil

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