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Uma relíquia reencontra o Flamengo e devolve à cidade a memória de Jamico

Letra original do hino do clube é recuperada por familiares e traz novamente à cena um dos personagens mais marcantes da história esportiva e cultural de Lafaiete

Entre as muitas histórias que ajudam a explicar uma cidade, algumas ficam adormecidas durante décadas. Até que um documento esquecido, uma fotografia antiga ou uma lembrança de família resolvem despertar tudo novamente.

Foi o que aconteceu com o Flamengo Futebol Clube de Lafaiete.

Em meio ao trabalho de reorganização da instituição, surgiu uma preciosidade: a letra original do hino do clube. Datilografada e preservada ao longo dos anos, a composição acabou conduzindo dirigentes, conselheiros e torcedores a um reencontro com a trajetória de seu autor, Jayme Dias da Silva, o inesquecível Jamico.

A recuperação do documento começou graças ao empenho de Marcelo Silva, o conhecido Marcelo do Banco e da Gerarda, sobrinho-neto de Jamico. Foi ele quem procurou Carmen, filha do compositor, guardiã da relíquia familiar que agora retorna ao conhecimento público.

Mais do que o autor de um hino, Jamico foi um daqueles personagens que parecem ter vivido várias vidas em uma só.

Jogador profissional, atuou pelo Madureira, do Rio de Janeiro, vestiu a camisa do Atlético Mineiro e também defendeu o tradicional Guarani de Lafaiete. Nos trilhos, trabalhou como maquinista. Na música, construiu uma reputação que atravessou gerações.

Exímio tocador de cavaquinho e violão, era presença constante nas rodas musicais da cidade. Compôs sambas-enredo, participou ativamente do Carnaval lafaietense e ajudou a escrever páginas importantes da cultura popular local. Boêmio assumido, daqueles que transformavam uma conversa em espetáculo e uma reunião de amigos em festa, tornou-se uma figura amplamente conhecida e admirada.

Seu talento o levou inclusive ao palco do Minas ao Luar, programa que revelou e valorizou grandes nomes da música regional mineira.

Ao mesmo tempo, mantinha uma vida marcada pela simplicidade. Gostava de pescar, apreciava a boa culinária, cultivava amizades por toda a cidade e carregava uma característica lembrada por todos que o conheceram: a generosidade.

Décadas depois de ter escrito os versos do hino flamenguista, Jamico volta a ser lembrado justamente quando o clube atravessa um processo de renovação.

Nos últimos meses, o Flamengo reorganizou documentos, iniciou negociações de antigas pendências, fortaleceu a atuação do conselho e passou a colher resultados também dentro de campo. O trabalho com a base já rendeu o título da categoria Sub-8 e o vice-campeonato do Sub-10.

Em meio a tantas mudanças, a reaparição do hino trouxe algo que não se encontra em arquivos cartoriais nem em balanços financeiros: a lembrança de pessoas que ajudaram a construir a identidade do clube.

Porque, no fim das contas, a letra recuperada não conta apenas a história do Flamengo.

Conta também a história de Jamico. E, de certa forma, uma parte da própria história de Lafaiete.

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