A saúde mental deixou de ser um tema restrito aos consultórios e passou a ocupar espaço nas discussões sobre saúde pública em todo o Brasil. Em Conselheiro Lafaiete, um levantamento oficial da Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura de Lafaiete, solicitado pelo vereador Pedro Américo de Almeida, o Pedrinho do PT, por meio do Requerimento nº 333/2026, apresenta um retrato da realidade enfrentada pelo município e mostra que o desafio permanece grande, mesmo com investimentos expressivos na área.
Os dados revelam que o município destinou R$ 11.009.197,01 para as ações de saúde mental. Desse total, R$ 1.756.121,42 são provenientes do Governo de Minas Gerais e R$ 9.253.075,59 correspondem a recursos próprios da Prefeitura de Lafaiete, demonstrando que a maior parte do financiamento é assumida pelo próprio Município.
O relatório também mostra que a procura pelos serviços especializados continua elevada. Atualmente, existem 52 pessoas aguardando atendimento no Centro de Especialidades, cinco pacientes na fila do Tratamento Fora do Domicílio (TFD), quatro no CAPS e outras 373 pessoas aguardando atendimento nos Centros Regionais de Saúde.
Suicídios
Entre os dados que mais chamam atenção estão os relacionados às tentativas de suicídio. Entre 2024 e 17 de junho de 2026, foram registradas 272 notificações de tentativas de suicídio por intoxicação exógena. Mais de 60% dos casos envolveram mulheres. O levantamento aponta ainda uma mudança no perfil etário predominante: até 2025, a maioria dos registros estava concentrada entre pessoas de 15 a 39 anos; em 2026, passaram a predominar pessoas entre 20 e 59 anos.
No mesmo período, foram registrados 30 óbitos por suicídio em Lafaiete. Os números apresentados pela Vigilância Epidemiológica consideram os dados disponíveis até 17 de junho de 2026 e, por isso, ainda poderão sofrer atualizações.
Para o vereador Pedro Américo, o levantamento é um instrumento importante para orientar políticas públicas.
“Nosso objetivo ao apresentar esse requerimento foi entender a dimensão da saúde mental em Lafaiete. Não se trata de procurar culpados, mas de trabalhar com dados concretos. Quando conhecemos a realidade, conseguimos cobrar políticas públicas mais eficientes e discutir soluções.”
Segundo o parlamentar, a divulgação desses números também ajuda a romper um tabu.
“Durante muito tempo as pessoas tiveram vergonha de falar sobre depressão, ansiedade e sofrimento emocional. Hoje sabemos que isso é um problema de saúde pública. Precisamos incentivar as pessoas a procurar ajuda e fortalecer cada vez mais a rede de atendimento.”
Os números divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde despertam uma percepção comum entre muitas pessoas: a sensação de que há mais casos de suicídio atualmente. O documento, porém, não permite afirmar que houve aumento. Ao contrário, os registros apresentados variam ao longo dos anos e 2026 ainda está incompleto. A sensação pode ser explicada por outros fatores.
Especialistas apontam que, após a pandemia, a saúde mental passou a receber muito mais atenção da sociedade. Os casos são mais notificados, o assunto ganhou espaço na imprensa, campanhas de conscientização reduziram parte do preconceito e as redes sociais fazem com que tragédias locais se tornem rapidamente conhecidas por toda a comunidade. Além disso, muitos municípios brasileiros registraram aumento na procura por atendimento psicológico e psiquiátrico nos últimos anos, reflexo de problemas como ansiedade, depressão, luto, insegurança econômica e isolamento social.
Por isso, mais do que perguntar se existem mais suicídios, talvez a principal reflexão seja outra: hoje enxergamos um problema que antes permanecia invisível para grande parte da sociedade.
Os dados oficiais mostram que Lafaiete investe recursos importantes na saúde mental e mantém uma estrutura de atendimento. Ao mesmo tempo, revelam que a demanda continua elevada e que o sofrimento psíquico permanece como um dos maiores desafios da saúde pública. É um tema que exige investimento contínuo, prevenção, informação e acolhimento, porque por trás de cada número existe uma vida, uma família e uma história que merecem atenção.




