Lafaiete conquistou por decreto um título ligado a uma de suas maiores heranças culturais, mas iniciativa que voltou a fabricar as históricas violas enfrenta dificuldades financeiras e pode interromper atividades. Há títulos que uma cidade recebe. Outros precisam ser merecidos durante gerações. Lafaiete é, oficialmente, a Cidade das Violas de Queluz. O título foi conferido pelo Decreto Municipal nº 313, de 2007, como reconhecimento a uma história construída quando o antigo nome de Queluz de Minas ganhou projeção pela fabricação de instrumentos que se tornaram conhecidos muito além das fronteiras do município.
Quase duas décadas depois daquele decreto, uma contradição ameaça essa história: o projeto que trabalha para manter vivo o saber de fabricar e tocar as Violas de Queluz pode interromper suas atividades em setembro. Idealizado por Reinaldo Meireles e desenvolvido no Espaço Cultural José Robert, no bairro Chapada, o projeto Violas e Violeiros de Queluz enfrenta dificuldades para manter sua estrutura. Segundo Meireles, taxas relacionadas à documentação necessária à regularização estão atrasadas e representam uma soma considerável. Há ainda outros custos permanentes para manter o espaço e as atividades.
Não seria apenas mais um projeto cultural fechando as portas. As Violas de Queluz estão entre os patrimônios mais particulares da história lafaietense. Além do título concedido à cidade em 2007, o município registrou, em 2014, o modo de fabricação do instrumento como patrimônio cultural imaterial. Antes disso, em 2009, havia instituído o Dia Municipal das Violas de Queluz.

Durante décadas, porém, permaneceu uma ausência incômoda: a cidade conhecida por suas violas já não as fabricava como no passado. Foi justamente esse elo que o projeto conseguiu reconstruir. No Espaço Cultural José Robert, a madeira voltou a se transformar em Viola de Queluz seguindo características preservadas do antigo modo de fabricação. O projeto reuniu pesquisa, educação patrimonial, formação de luthiers e formação de violeiros. Mais de 2 mil pessoas já foram alcançadas por suas ações, incluindo estudantes que tiveram contato com uma história que poderia permanecer restrita a livros, fotografias e instrumentos antigos.
A tradição voltou a ter mãos. Agora, corre o risco de perdê-las novamente. A eventual paralisação em setembro expõe uma pergunta desconfortável para o poder público, a sociedade e, principalmente, para quem movimenta a economia da região: quanto vale para Lafaiete continuar sendo, de fato, a Cidade das Violas de Queluz Porque um decreto consegue proteger um título. Não consegue, sozinho, manter uma oficina aberta, formar um luthier, ensinar uma criança a tocar ou pagar as despesas necessárias para que um projeto sobreviva.
É justamente nesse ponto que a iniciativa privada pode alterar o desfecho dessa história. O projeto já passou pela experiência de captação por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e busca parceiros capazes de associar suas marcas à preservação de um patrimônio diretamente ligado à identidade lafaietense. Para uma empresa da cidade ou da região, apoiar as Violas de Queluz significa mais do que patrocinar uma atividade cultural. Significa assumir parte da responsabilidade pela continuidade de uma história que nenhum outro município brasileiro pode reivindicar da mesma maneira.
Em 2014, quando o modo de fabricação foi registrado como patrimônio imaterial, a própria Prefeitura apontava a instalação de uma luteria e a busca de parceiros e empreendedores como caminhos para devolver a Lafaiete a fabricação de suas violas. Esse caminho foi percorrido. A viola voltou a nascer em Lafaiete.
O que falta agora é garantir que continue nascendo. Reinaldo Meireles afirma que, sem condições financeiras para manter a estrutura, a interrupção das atividades deverá ocorrer em setembro. Até lá, existe uma pequena janela para que empresas, instituições e outros parceiros impeçam que isso aconteça. Seria uma ironia dolorosa ver uma viola sem cordas se transformar na imagem de uma cidade que possui o título, o decreto, o patrimônio e a história, mas não conseguiu manter vivo quem decidiu transmiti-los às próximas gerações.
Lafaiete conquistou o direito de ser chamada Cidade das Violas de Queluz. O desafio, agora, é não deixar que esse título se transforme apenas em memória.




