Cooperativas de mulheres e o turismo de experiência provam que a identidade cultural e as rotas locais são saídas viáveis para o futuro de Minas Gerais.
Se para as administrações públicas o futuro sem a mineração ainda é apenas um desenho no papel, para quem vive no território o recomeço forçado mostrou que existem caminhos econômicos viáveis fora das cavas. Em Mariana, no novo assentamento de Bento Rodrigues, a reconstrução da Cooperativa de Produtoras de Geleia de Pimenta-Biquinho ilustra como a tradição local e o cooperativismo podem sustentar famílias e projetar o nome da região para além das fronteiras do estado.
O projeto, que antes do rompimento da barragem de Fundão estava prestes a ganhar o mercado internacional, precisou ser totalmente reestruturado. O processo de reerguimento contou com o aporte das indenizações e o apoio estrutural para a montagem de uma nova fábrica. Neizita Geralda da Conceição, de 64 anos, uma das lideranças e fundadoras da cooperativa, recorda o patamar em que o negócio se encontrava antes do desastre. “Na época, a gente teve até uma oferta de fazer uma exposição fora do Brasil, na Alemanha. A gente iria em janeiro de 2016”, lembra, sem esconder o saudosismo.
A produção era robusta e baseada no cultivo local. “A gente tinha uma plantação com 700 a mil pés de pimenta-biquinho. A gente colhia até 900 kg de pimenta por ano”, relata. No momento do rompimento, a colheita anual estava pronta para ser processada. “Quando o Bento acabou, a gente estava com 800 kg de pimenta colhida”, recorda, como se fosse ontem, os detalhes da produção no dia em que a lama engoliu a pacata comunidade e o negócio.
Hoje, a cooperativa depende de outro produtor, na Bahia, para manter a fábrica de geleias funcionando. Porém, ganhou agilidade com a nova estrutura montada. “Se tiver encomenda a gente vai lá e ‘rapidão’ faz 500, 600 potinhos por dia. Depois que pega o costume fica mais fácil”, conta orgulhosa.
União feminina e resiliência
A trajetória da cooperativa de geleia reforça o papel do empreendedorismo feminino como pilar de sustentação econômica e social em comunidades dependentes da mineração. Formado essencialmente por mulheres, o negócio funcionou também como um elo de ligação comunitária durante o período em que as moradoras estiveram dispersas pelas áreas urbanas após perderem seus lares.
“A gente nunca parou de fabricar geleia. Mesmo lá em Mariana, a gente adaptou uma salinha e continuou fazendo. Nunca paramos porque, como a gente é muito unida, não queria ficar sem ver uma a outra, porque cada uma foi morar em um bairro. Continuar com a geleia era uma forma de a gente se encontrar pelo menos uma vez por mês”, conta Neizita.
Com todas as cooperadas já reassentadas no novo distrito, o plano agora é retomar o crescimento interrompido há uma década e buscar o mercado externo. “Nosso sonho é vender muito cada vez mais. Até para o exterior, com certeza”, diz empolgada. Para as cidades mineradoras de Minas Gerais, o exemplo de Bento Rodrigues deixa uma lição: a transição depende do fortalecimento das vocações locais. “Foi uma coisa muito difícil, mas é bola para a frente. Fé em Deus e seguimos. Tem que seguir”, diz, esperançosa, Neizita.
Procurada, a mineradora Samarco afirmou que “entende que apoiar economias locais mais diversificadas e resilientes é parte do seu compromisso com os territórios onde atua e que “contribui para a diversificação e o desenvolvimento socioeconômico de Mariana, Ouro Preto e região, por meio de programas próprios e de iniciativas vinculadas ao Novo Acordo do Rio Doce, com foco na construção de soluções estruturantes e no fortalecimento de um impacto positivo para a região”.
“Com o Programa Força Local, por exemplo, a empresa e suas contratadas desembolsaram R$ 4,2 bilhões em Minas Gerais, entre novembro de 2020 e março de 2026, beneficiando 3.160 fornecedores locais de Mariana, Ouro Preto, Catas Altas e Santa Bárbara. Na frente de qualificação profissional, além das vagas ofertadas pelo próprio Força Local, a Samarco investiu R$ 3,7 milhões em 32 iniciativas de capacitação, que atenderam 1.122 participantes, contribuindo para ampliar as oportunidades de inserção produtiva na região”, destaca.
O Plano de Apoio à Diversificação Econômica (PADE) é outro exemplo, segundo a mineradora. “Trata-se de uma condicionante ambiental desenvolvida pela Samarco em conjunto com o poder público e a sociedade civil, com o objetivo de orientar ações voltadas ao desenvolvimento sustentável e ao fortalecimento de atividades econômicas, a partir do mapeamento das potencialidades e vocações de Mariana e Ouro Preto”.
Ainda segundo a Samarco, o apoio ao empreendedorismo também integra as ações de reparação socioeconômica conduzidas pela empresa, no contexto da transição prevista no Novo Acordo do Rio Doce. “O Fundo Diversifica Mariana já disponibilizou mais de R$ 87,6 milhões em crédito para empresas do município até março de 2026, beneficiando 497 empreendimentos locais, com cerca de 700 contratos de financiamento firmados”, afirma.
Além disso, a empresa tem previsão de novos investimentos em ações estruturantes no município de Mariana, com foco em infraestrutura, segurança hídrica e mobilidade urbana.
O asfalto como alternativa: o mototurismo que ressignifica
Mudar a rota econômica de uma região dependente da mineração exige, muitas vezes, olhar para o que o território já tem de mais bonito. Em Casa Branca, distrito de Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o motociclista Geraldo Juliani, de 71 anos, encontrou nas curvas e montanhas de Minas Gerais a chave para impulsionar o turismo de experiência.
Após a tragédia do rompimento da barragem da Vale na cidade, em 2019, a necessidade de buscar alternativas econômicas tornou-se urgente. Foi observando o potencial das estradas locais que Geraldo e seus parceiros fundaram, em 2023, a empresa de eventos Vem pro Ride. “Eu rodo muito, e o pessoal começou a me procurar. Recebo grupos de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e até do Piauí”, conta Geraldo.
Para ele, as montanhas de Minas oferecem uma experiência impactante. Mais do que apenas rodar, a proposta é gerar impacto social e econômico direto nas comunidades atingidas pelo desastre da mineração, como o Córrego do Feijão. O grupo organiza passeios integrados à cultura local, englobando a gastronomia mineira e a visitação de quatro comunidades quilombolas da região. “Levamos os grupos com o intuito de ressignificar a atividade da região, mostrando que há vida além da mineração”, explica Geraldo.
O retorno tem sido sustentável. Os motociclistas participam dos roteiros focados nas paradas para alimentação e, mais tarde, acabam retornando com amigos e familiares de carro para comprar os produtos locais, já que o espaço na moto é limitado.
A empresária Iara Gazzinelli, proprietária da pousada Villa Domaso, também em Casa Branca, viveu de perto os impactos econômicos provocados pelo rompimento da barragem em 2019. Segundo ela, o negócio ficou cerca de três meses sem qualquer receita após a tragédia, e a recuperação foi lenta. “Foi mais de um ano para uma pequena melhora no retorno dos hóspedes”, relata.
O cenário era reflexo do receio que tomou conta da população e da queda no fluxo de visitantes. Diante disso, uma das estratégias adotadas em parceria com o Sebrae foi orientar empresários a direcionar produtos e serviços também para o público local, reduzindo a dependência dos turistas. “Hoje posso dizer que a pousada voltou ao funcionamento normal. Foi um período muito difícil. Houve grande sofrimento da população, além dos danos ambientais no rio Paraopeba, no solo e na fauna. Mas considero que hoje houve muitos avanços e existem oportunidades de reconstrução”, afirma Iara.
“Não é cidade fantasma”
A história de Renata Marley com a culinária é antiga, mas ganhou novos significados diante dos desafios. Moradora do Córrego do Feijão, em Brumadinho, ela encontrou na cozinha, há anos, não só o sustento dos clientes, mas também o próprio. “Eu sou quitandeira, sempre trabalhei com quitanda antes do rompimento da barragem e após o rompimento”, conta.
Após a tragédia que marcou a região, surgiu a oportunidade de unir forças com outras moradoras para atender a uma demanda da mineradora Vale. O que começou com um grupo de 16 mulheres focadas em servir almoços para reuniões da empresa passou por transformações. Com o tempo, 12 delas desistiram, mas o núcleo que permaneceu deu vida a algo muito maior. “Hoje em dia nós temos o Memórias Cozinha Afetiva, que é um grupo de mulheres formado para atender essas demandas, mas que hoje se expandiu. Atendemos vários eventos”, diz.
Hoje, Renata se orgulha de sua trajetória no empreendedorismo: “Sou empresária na área alimentícia, não saí do setor. Tenho o meu empreendimento, que se chama Marley Alimentos, e também o Memórias Cozinha Afetiva”, afirma.
O grupo Memórias Cozinha Afetiva, fundado oficialmente no dia 18 de outubro de 2022, transformou-se em um símbolo de resistência para a comunidade. Para Renata, o negócio vai muito além da gastronomia: é uma prova viva do potencial e da força do povo de Brumadinho.
“Nós mostramos que em Brumadinho também tem pessoas qualificadas e que podem defender uma bandeira que muitos acharam que estava perdida. Após o rompimento, muitas pessoas achavam que tudo tinha se perdido, acabado. Mas mesmo em meio à lama, mesmo que você perca tudo, se você não perder a fé em Deus e não perder a vontade de viver, não perder a esperança, você consegue se reerguer”, diz ela.
Esse espírito de luta reflete diretamente na identidade que o Córrego do Feijão quer projetar. “Isso contribui muito para mostrar que não é o abalo emocional que desanimou a gente. Vamos batalhar, vamos viver, vamos continuar. O Córrego do Feijão não é uma ‘cidade fantasma’, igual muitos falam. Tem profissionais qualificados e muito competentes”, afirma.
A qualidade do serviço do Memórias Cozinha Afetiva, segundo Renata, tem levado o nome da comunidade para diversas outras cidades da região metropolitana e do interior de Minas Gerais.
“A gente contribui bastante com o crescimento da cidade. As pessoas ficam surpresas quando contratam a gente. Fazemos eventos em Belo Horizonte, Igarapé, Ibirité. Nós temos esse destaque, esse mérito. Isso é muito bom para nós, para o crescimento de Brumadinho e principalmente do Córrego do Feijão.”
O desafio de diversificar sem abrir mão da receita
O dilema de Brumadinho ilustra a complexidade da transição. Sete anos após o desastre que matou 272 pessoas, a mineração segue como uma das principais fontes de receita da cidade. À época da tragédia, a prefeitura afirmava que cerca de 60% da arrecadação vinha da atividade mineral. Em 2025, o município arrecadou R$ 112,6 milhões por meio da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) — quase o dobro dos R$ 62,5 milhões recolhidos em 2018 —, para um orçamento municipal estimado em R$ 505 milhões.
Embora os recursos continuem fundamentais, o analista do Sebrae Minas no município, Renato Lana, defende que a diversificação não deve ser vista como uma substituição da mineração, mas como uma estratégia para ampliar oportunidades por meio de políticas públicas de longo prazo. “O problema não é prestar serviço para a mineração. O problema é prestar serviço somente para a mineração”, afirma o especialista, destacando que o município possui forte vocação para a produção de hortaliças, além de natureza exorbitante e cultura forte.
Na visão do professor Bernardo Campolina, da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), os municípios precisam pensar em como suprir o que arrecadam com a mineração, um processo que exige planejamento profundo e de longo prazo. “Estamos falando de fazer política pública. Não estamos falando de coisa simples. Esse debate deveria ser algo central”, afirma.
Para Brumadinho, Campolina teoriza que uma inserção ainda maior no turismo é uma possibilidade real, agregando novos equipamentos para quem visita o Instituto Inhotim. Além disso, o professor vê vocação para a parte viária, apostando no município como um polo estratégico devido à posição privilegiada de acesso à BR-040 e à rodovia Fernão Dias. “Os acessos a partir dessas rodovias são muito ruins e precários. É preciso estudar se o município poderia se tornar uma zona industrial, um hub de plataforma verde. Para isso, precisa de estudo e logística complexa”, pondera.
Planejamento e investimentos no horizonte
Diante das cobranças por transição, o poder público e a iniciativa privada começam a movimentar suas peças. A Prefeitura de Brumadinho afirma estar em processo consistente de preparação e aponta o turismo como o eixo econômico com resultados mais visíveis. O setor ganhou projeção internacional em 2026 com a inclusão do Instituto Inhotim na lista dos 52 lugares para conhecer do The New York Times (ocupando a 24ª posição). O reflexo foi imediato: em 2025, o Inhotim registrou recorde de mais de 335 mil visitantes.
Para estruturar esse fluxo, a administração municipal assinou contrato com a rede portuguesa Vila Galé para a construção de uma unidade hoteleira de 312 quartos, com investimento superior a R$ 150 milhões. Na seara estrutural, o município aposta no Parque de Desenvolvimento Econômico de Brumadinho, projeto de R$ 145 milhões provenientes do acordo de reparação da Vale, desenhado para atrair indústrias e empresas de diferentes portes fora do setor mineral. Há ainda iniciativas como o Plano de Turismo de Brumadinho, a Central de Agricultura Familiar e os programas de capacitação voltados ao empreendedorismo feminino, como o Empreenda como uma Mulher e o TIME 360.
A mineradora Vale, uma das principais em atuação em Brumadinho e responsável pelo rompimento em Córrego do Feijão, foi procurada e destacou o lançamento do Programa de Empregabilidade, em parceria com o Ministério Público de Minas Gerais e a prefeitura, que oferecerá 600 vagas em cursos profissionalizantes, além de investimentos no Parque de Desenvolvimento Econômico e ações de fomento à produção agrícola e ao turismo.
Fonte: O TEMPO



